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O COBERTO VEGETAL DA SERRA DA LOUSÃ

Jorge Paiva

SUMÁRIO

Por cada minuto e diariamente o mundo destrói 60 hectares de vegetação natural e semi-natural e uma entre dez das espécies de plantas superiores existentes na Terra fica ameaçada de extinção.

Encontramo-nos, na realidade, perante uma grave situação, à qual a permanência do homem na terra está estreitamente ligada, face à sua dependência relativamente aos recursos vivos como fonte de produção de alimentos, fibras, produtos medicamentosos, matérias primas para a indústria, etc., para além do recreio e lazer que as áreas naturais proporcionam.

Se as condições "demolidoras" actuais continuarem, calcula-se que cerca de 60.000 espécies de plantas, do total de cerca de 330.000, podem desaparecer durante a primeira metade do próximo século.

A devastação da Natureza atinge também o nosso País. As montanhas portuguesas estiveram outrora revestidas por imensos carvalhais constituindo, actualmente, uma grande parte delas, formações de pedra nua.

A Serra da Lousã, situada na mesma direcção da Serra da Estrela, estendendo-se particularmente do Pico do Espinhal até aos Penedos de Góis, com o ponto mais alto no Trevim, não constitui excepção nesse desastre ecológico das montanhas portuguesas. Constituída fundamentalmente por xistos precambricos, pouco ou quase nada apresenta do revestimento florístico natural e original, apresentando-se nua ou coberta de plantas exóticas como as acácias e eucaliptos.

INTRODUÇÃO

As glaciações têm feito recuar e avançar os glaciares do Velho Continente, e consequentemente, contribuíram para o desaparecimento de muitas espécies vegetais.

Há cinco milhões de anos, antes das glaciações, o sul da Europa devia ter um clima relativamente quente mas húmido, uma floresta densa recobria então as costas do mediterrâneo norte-ocidental. O avanço dos gelos, há 3 milhões de anos, mudou tudo. Apesar da Europa do sul não ter sentido os rigores dos grandes frios, a verdade é que a humidade e a pluviosidade diminuíram muito. As plantas que sobreviveram a este choque climático tinham de, ao mesmo tempo, aguentar temperaturas relativamente baixas no Inverno e secas estivais. Nasciam assim as associações vegetais tipicamente mediterrânicas.

O clima actual é uma consequência desta evolução. Isto é, da evolução de um clima tropical ou sub-tropical sob a influência de sucessivas "ondas de frio". Aliás é igualmente a passagem dos gelos que explica a relativa pobreza, em número de espécies arbóreas, das nossas florestas, melhor, das florestas europeias.

No Pliocénico, o período geológico que antecedeu as últimas glaciações, existiam em Portugal cedros, sequóias, abetos e faias que não resistiram aos rigores do clima. O vale do Zêzere na Serra da Estrela e as moreias da Serra do Gerês, são testemunhos da acção das referidas glaciações no nosso território.

Portugal faz parte da zona atlântica europeia sob a influência da acção da corrente do Golfo, onde a estação fria é relativamente curta. Por outro lado, grande parte de Portugal está englobada na chamada zona mediterrânica.

Na zona atlântica, que abrange todo o norte do País e um pouco da zona central, elementos de florestas sempreverdes dos climas temperados (a laurisilva) ainda ocorrem, como o azereiro (Prunus lusitanica L.) e o loendro ou adelfeira [Rhododendron ponticum L. ssp. baeticum (Boiss. & Reut.) Hand.-Mazz], o azevinho (Ilex aquifolium L.), o loureiro (Laurus nobilis L.) etc. Praticamente, florestas genuínas de loureiro existem apenas nas Ilhas Canárias. Alguns destes elementos sempreverdes encontram-se nas florestas caducifólias de carvalhos (Quercus) ou do castanheiro (Castanea saliva Miller), que substituíram a floresta sempreverde.

A "última" cobertura florestal natural de Portugal deveria ter sido um imenso carvalhal. A norte do Tejo os carvalhos caducifólios, com o alvarinho (Q. robur L.) nos vales e encostas de clima temperado sem longos períodos secos de carácter atlântico e até l000-l300m; o negral (Q. pyrenaica Willd.) formando bosques nas montanhas de clima mais agreste de carácter subatlântico, indo até 1600 m. e nas zonas de transição para o clima mais mediterrânico era o carvalho português [Q. faginea Lam. subsp. broteroi (Cout.) Samp.] que abundava, sendo um carvalho com as folhas um pouco mais duras que as dos precedentes, perdendo-as mais tarde, nunca ficando completamente despido pois quando as últimas folhas estão para cair, já das gemas novas brotam folhas.

Os carvalhos do sul, os sobreiros (Q. suber L.) e as azinheiras [Q. ilex L. subsp. rotundifolia (Lam.) Schwarz ex Tab.] são árvores verdadeiramente mediterrânicas, perenifolias, com as folhas duras e resistentes.

Além destas espécies predominantes, em Portugal ainda ocorrem espontaneamente o pedamarro (Q. faginea Lam. subsp. faginea) na Beira montanhosa e Trás-os-Montes, o carvalho-anão (Q. lusitanica Lam.) para o sul da Estrela, e o carrasco (Q. coccifera L.), arbusto dos terrenos secos e pedregosos, particularmente calcáreos, das Beiras e sul do país.

Não é possível reconstruir para todo o país o que teria sido o coberto florestal original. Sabe-se que os carvalhos já dominaram as nossas paisagens e que existem mais de quinhentos topónimos que derivam da presença dos carvalhos, dos sobreiros, azinheiras, assim como do teixo, freixo e vidoeiro. Estes últimos tipos de floresta têm vindo a ser substituídos por formações de urzes (Erica ssp.), tojo (Ulex ssp.), giesta (Cytisus ssp.) e carqueja [Chamaespartum tridentatum (L.) Gibbs] desde épocas muitos remotas. A destruição foi tal que, durante muito tempo, se consideraram estas formações de "mato" como verdadeiras zonas naturais de vegetação. O solo é realmente tão pobre que apenas plantas pouco exigentes como as urzes o suportam, daí o julgarem-se estas zonas como naturais. Alguns topónimos antigos são indicativos que a destruição se iniciou mesmo em tempos históricos, como é o caso da Serra Amarela do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

No nosso País, a partir de certa altura, essas zonas foram reflorestadas com o pinheiro bravo (Pinus pinaster Alton). É uma árvore ecologicamente bem adaptada aos ambientes de Portugal atlântico. Parece que a sua distribuição natural em Portugal abrangia o litoral norte com neblinas matinais, até ao Cabo da Roca.

As nossas montanhas transformaram-se então num imenso pinhal, não natural dessas zonas montanhosas.

Sem qualquer dúvida que a zona mediterrânica era primitivamente uma formação esclerófila de azinheira [Quercus ilex L. subsp. rotundifolia (Lam.) O. Schwarz ex Tab.]. Actualmente está muito degradada e existem apenas alguns afloramentos isolados, e o solo, que era rico de terra-rossa na camada superior, perdeu por erosão esta camada e apresenta-se avermelhado, correspondendo à camada argilosa.

As formações mediterrânicas ocupadas naturalmente pelas formações de Pínus pinea L. correspondem às áreas arenosas pobres, não longe da costa.

Alguns autores admitem que esta espécie de pinheiro tenha sido introduzida em Portugal pelo homem, em épocas muito remotas, talvez antes da ocupação romana. Os vestígios mais antigos do pinheiro manso, pinhões fósseis, foram descobertos em estações arqueológicas do fim da idade da pedra.

Nas zonas montanhosas do norte (por exemplo Gerês) existia a floresta subalpina do pinheiro-da-casquinha (Pinus sylvestris L.).

A composição da floresta portuguesa não foi alterada apenas pela acção nefasta do homem, mas muitos dos incêndios que a destroem e a alteram, são devidos à acção humana. O incêndio ocorrido na Serra da Estrela há cerca de 4300 anos destruiu praticamente toda a sua vegetação. A floresta, no entanto, conquistou de novo a montanha com um povoamento dominado pelo vidoeiro.

Os fogos, de origem espontânea ou não, são um factor ecológico que, através dos tempos, tem exercido a sua acção nas formações florísticas e em parte na fauna, sendo os problemas ecológicos a eles inerentes muito variados e muitas vezes, de difícil interpretação.

As referências históricas de fogos em Portugal, podem remontar-se, pelo menos, aos fins do século XII, e os seus nefastos efeitos operaram uma modificação quase total da cobertura vegetal do país, e o assoreamento de uma grande parte dos rios. Na última década os fogos florestais tomaram uma enorme importância económica pela sua maior frequência e extensão. Quase 700 mil hectares de floresta arderam no país na última década, e cerca de 300 mil hectares foram desertificados pelo arranque de azinheiras.

Também existem referências históricas sobre as diferentes leis com o fim de punir os chamados "fogos postos", mas também, valha a verdade, essas leis, tal como as de hoje, foram não só suaves, como de difícil aplicação pela falta de policiamento florestal adequado.

Como consequência da devastação do pinhal tem-se vindo a assistir a um aumento sistemático da área ocupada por plantas nativas da Austrália, como os eucaliptos e acácias. Naquela zona do globo florescem naturalmente mais de quinhentas espécies de eucaliptos.

Curiosamente em Portugal já existiram plantas aparentadas com eucaliptos há mais de 65 milhões de anos, antes do Cretácico, portanto. O desaparecimento desses "eucaliptos" ocorreu na Europa simultaneamente com a extinção dos dinossauros. Há cerca de dois séculos os eucaliptos "regressaram" ao nosso país pela acção do homem, julgamos que através do Jardim Botânico de Coimbra, onde florescem 47 espécies desse género.

Segundo revelação do Instituto Português de Produtos Florestais, Portugal corre o risco de ser "colonizado" pela CEE, no sector florestal, "eucaliptando" assim as suas terras para produção de madeira, sobretudo de eucalipto.

Com ou sem eucaliptos e acácias, a continuar a onda de incêndios dos últimos anos, as nossas montanhas caminham vertiginosamente para a desertificação com o consequente aumento do assoreamento dos rios. Aliás, muitas das nossas montanhas são, actualmente, autênticas zonas desérticas pois até as formações secundárias já referidas de tojo, giestas, urzes e carquejas, que ainda "seguravam" o resto de solo empobrecido, têm sido devastadas pelos incêndios.

Por outro lado, a poluição atmosférica, um outro fenómeno que tem contribuído para a desertificação da Europa, já atinge também o nosso pais.

Está amplamente verificado que o rápido crescimento industrial, mas particularmente a incontrolada e desmedida industrialização, na maioria das vezes "comandada" por indivíduos ambiciosos e sem o mínimo de escrúpulos e respeito pelo seu semelhante, contribui dia a dia para a poluição da biosfera, "enriquecendo-a" de produtos químicos nocivos que seguidamente, transformados ou não, são depositados na superfície terrestre sob a forma de poeiras ou chuvas.

Alguns desses produtos químicos são gases como o gás sulfídrico (H2S), sulfuroso (S02), óxidos de azoto (NOx), monóxido e dióxido de carbono (CO e CO2) que na atmosfera se combinam com radicais hidroxílicos (OH), acabando por serem transformados em ácidos, como o ácido sulfúrico (H2SO4), nítrico (HNO3) e carbónico (H2CO3). Por isso é comum designar as chuvas carregadas de poluição, por "chuvas ácidas", o que nem sempre corresponde à realidade.

A designada "Doença das Florestas" não é causada unicamente pelas chuvas ácidas, mas muitas vezes por produtos poluentes não acídicos. Vários são os factores que contribuem para a agonia florestal do século, dependendo os seus efeitos do tipo da floresta e do tipo de solo.

Geralmente somos acusados de pessimismo quando consideramos que a poluição da biosfera, particularmente da atmosfera, atingiu tão elevado nível que já não permite uma vida humana normal.

A espécie humana caminha para um verdadeiro suicídio, pois saturou a biosfera de veneno, tendo-a transformado numa gigantesca esponja abarrotada de produtos tóxicos como o chumbo, mercúrio e DDT, recoberta por uma atmosfera empobrecida de oxigénio, plena de gases nocivos como NOx, SO2, CO e CO2. O gás carbónico (CO2) em excesso, produz o designado "efeito de estufa", aumentando a temperatura, favorecendo o degelo das calotes polares e altas montanhas, o que implicará um aumento espectacular do nível médio oceânico com a inundação catastrófica do litoral continental. Por outro lado o hidrogénio resultante de reacções em certos produtos utilizados excessivamente pela humanidade, sendo um gás muito leve, reage com o azono (O3) da delgada camada que envolve o globo a cerca de 20.000 m de altitude. Essa camada de ozono "filtra" os raios ultravioleta que incidem sobre a terra, impedindo a acção mortífera destes raios de curto comprimento de onda. Desaparecendo ou diminuindo a espessura dessa camada protectora, desaparecerá com ela a vida terrestre.

Sejam quais forem as reacções ou os gases que provocam a morte das árvores, uma certeza existe: a agonia das florestas é resultante da poluição atmosférica.

E pois urgente, não só para a flora portuguesa, como para a nossa população, que se efectuem pesquisas e determinações do teor dos gases nocivos e poluentes na atmosfera de Portugal.

E também urgente que se tomem medidas eficazes de prevenção dos incêndios florestais, contra uma "eucaliptação" desmedida e até, nalguns casos já demonstrados, desertificantes de solos agrícolas e contra o "abate" devastador de carvalhais, sobreirais e azinhais.

A SERRA DA LOUSÃ

Como se sabe, a Serra da Lousã (1204 m) em ligação com a Serra da Estrela (1991 m), faz parte do Sistema Montanhoso Luso-Castelhano. É das formações montanhosas mais importantes de Portugal, sendo fundamentalmente xistosa e precambrica, portanto geologicamente muito antiga.

Como se pode deduzir da resenha introdutória, a Serra da Lousã deveria ter sido um imenso carvalhal constituído predominantemente pelo carvalho-alvarinho (Quercus-robur L.) e talvez também, nos pontos mais altos, pelo negral (Q. pyrenaica Willd.), com sobreirais (Q. suber L.) nas zonas de climas mais temperados e secos.

Testemunhos destas formações são os resquícios de carvalhos que se encontram nalguns vales da Serra da Lousã, muita da toponímia de aldeamentos e zonas da Serra, e também a Mata do Sobral, na freguesia de Serpins. Esta Mata apesar de muito degradada e alterada na sua constituição florística original, particularmente pela acção das populações que dela se utilizaram até 1909 e pelos Serviços Florestais, pela passagem da Mata ao Regime Florestal, a partir de Decreto-Lei de 7 de Setembro de 1909, está razoavelmente preservada.

Apesar de todas essas alterações provocadas pela acção humana, a Mata do Sobral é a formação florística mais significativa como testemunho da cobertura natural da Serra da Lousã, já que de outras matas do mesmo tipo, que, no início do século passado, ainda existiam, como a Mata do Braçal e a Mata da Cabeça Gorda, praticamente nada resta actualmente.

Com os incêndios devastadores dos últimos anos, e a nefasta acção humana, a Serra da Lousã está a transformar-se numa área montanhosa desértica. Há actualmente, zonas em que já nem as formações de solos empobrecidos, como os urzais, tojais e giestais, existem.

Em zonas degradadas, as infestantes florestais australianas, acácias e eucaliptos, aquelas naturalmente e estas pela acção humana, invadiram e continuam a invadir as áreas onde ainda existe algum solo.

Numa jornada a pé desde a Vila da Lousã até ao Trevim, pela Feitosa, Relva Fundeira, Relva Cimeira, Ortiga (Fonte Seca) e Relva de Franco não se observam carvalhais, mas sim matas de acácias e, já junto ao Trevim, os urzais e tojais. O cume da Serra, onde ainda se encontram alguns elementos herbáceos e arbustivos característicos das formações florísticas das zonas alti-montanhosas de Portugal e que tem vindo a sofrer uma drástica regressão nos últimos anos, está, quanto a nós, perdido pelas instalações militares e de radiodifusão que ali se têm instalado ultimamente.

O vale da Senhora da Piedade é, na realidade, uma área aprazível, mas, valha a verdade, floristicamente não representa nada do que era o manto florestal dessa zona. Está completamente infestado de acácias, mais representando uma zona do continente australiano do que uma região tipicamente portuguesa.

Há cinquenta anos, quando foi comemorado o centenário deste mesmo acontecimento de que agora se celebra o 150.º aniversário, a Serra estava bastante florestada de pinhais, como se pode verificar pelas palavras proferidas pelo Dr. Raul Miranda nessa altura: "A cobertura da serra, pela verdura dos pinheiros, obra grandiosa que aos Serviços Florestais pertence, vai modificando o clima da montanha, tornando-o mais húmido e fazendo-lhe perder o ar demasiadamente seco que a pedra nua traduzia em toda a sua aridez.

Dentro de alguns anos, vestida a serra, aumentará o património do País no campo florestal e as suas madeiras e resinas, serão largo motivo de valorização da terra em benefício da grei e em proveito da Nação".

Do imenso carvalhal que foi a Serra da Lousã, nos finais do século passado, pouco restava, e estava transformada em urzais, tojais e giestais, com campos de cultivo nos vales, predominantemente em socalcos.

A partir do início do século passado, pela acção dos Serviços Florestais e pelas populações rurais, ficou coberta por imenso pinhal, que pelos sucessivos fogos e acção humana, foi transformado em acaciais e eucaliptais e zonas desérticas.

Fazemos votos que a degradação seja sustida e que, pelo menos nalgumas zonas da serra, os vindouros possam vir ainda a desfrutar de carvalhais, plantados pela geração a que pertencemos. Ainda não está tudo completamente perdido, mas a manter-se a devastação a que a Serra tem sido sujeita, particularmente nos últimos anos, nas comemorações do segundo centenário dessa "viagem turística", não valerá a pena efectuar a deslocação ao Trevim.[Jornadas de Cultura e Turismo...Lousã, 1988]