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ACHEGAS SOBRE O PELOURINHO DA LOUSÃ

POR LOUSÃ HENRIQUES

 

Feito o pelourinho da Lousã, segundo o modelo primitivo, como se deduz do trabalho do Prof. Álvaro Viana de Lemos, após aturadas investigações de documentação e materiais subsistentes, apresenta um aspecto curioso, senão lírico, entre os demais.

O facto de possuir quatro faces é sem dúvida, um caso raro entre os pelourinhos conhecidos no nosso País! Pode estar ligado a uma tradição; pode estar ligado a coisas arcaizantes — carrancas, símbolos, etc., que podiam derivar de passados culturais mais arcaicos ou, ainda, de formas religiosas mais arcaicas; pode estar, ainda, ligado a uma tradição de distribuidor de almas.

O modelo que existe na Lousã tem num lado e no lado oposto, rostos de homem e nos outros, rostos de mulher. A significação poderá estar relacionada, em aspectos religiosos mais antigos, o que é explicado pela antropografia, com encruzilhada, zona de bruxas, zona de perigos, possivelmente de perigos reais, de encontros de estradas, zonas de assalto, etc., etc. Este significado estará de acordo com uma tradição existente no Norte, no Minho e na Galiza, em que estes símbolos terão a função de orientar as almas que vão pelos caminhos à procura do seu destino, sendo a encruzilhada um sítio de confusão. Daí as almas penadas e a necessidade de haver um marco que as oriente e, a existência de uma tradição de quatro faces nas encruzilhadas.

Era extremamente importante saber onde esteve colocado o primitivo pelourinho ou essa primeira pedra. Saber se teria estado numa encruzilhada das principais vias da Lousã ou, muito simplesmente, se não terá sido uma ideia casual e importada por um indivíduo que veio do Norte e que o fez, por fazer. Neste caso seria já uma ideologia oca, sem significado.

Como esteve muito perto do recinto, onde se situava a Igreja e, onde hoje se localiza o Centro Cívico da Lousã (não raro uma terra se desenvolveu numa zona de cruzamento de caminhos), poderemos encará-lo com esse significado.

Pelourinho-Face masculina

Há a probabilidade desta encruzilhada ser constituída pelas linhas, Lousã - Coimbra, junto à Igreja e Góis - Miranda do Corvo, que passaria pela zona do actual apeadeiro. Claro que as possíveis mudanças de propriedade e o desenvolvimento urbanístico, com o decorrer dos tempos, terá modificado o traçado viário.

As hipóteses aduzidas, para se tomarem consistentes, necessitariam de um estudo das plantas antigas da Lousã, a fim de se verificar a relação entre a primitiva colocação ou, primitivo sítio do pelourinho e os eixos viários mencionados.

Por outro lado, pode ser um mero acaso, como já havíamos afirmado, fruto de um artista deslocado. De facto, existiam zonas tradicionais de canteiros e de pedreiros que chegaram até estas paragens; vinham de Santa Ovaia/Nogueira do Cravo; vinham de Alcains, vinham do Minho. Estes eram tradicionalmente bons trabalhadores da pedra, bons canteiros.

Apalavrada a obra a executar em determinada região, deslocavam-se para aí a executarem, acompanhados, não raras vezes, pelo irmão, pelo cunhado, pelos filhos ou aprendizes, de idades compreendidas entre os 16-18 anos. Era natural que rapazitos novos se travassem de amores com uma ou outra cachopita da terra e por ali se fixassem.

O Minho apresentava um saldo fisiológico! Concretamente na minha terra, no Coentral, havia umas duas ou três famílias em que o homem foi um desses pedreiros. Por lá casou e por lá ficou!

Desta imigração resultou naturalmente a assimilação/transmissão de tradições não locais, no caso concreto da Lousã, de forte incidência do Minho ou da Galiza.

Não parece ser muito nítido o cânone dos acabamentos dos pelourinhos, os remates aparecem-nos com diversas formas mais ou menos requintadas; pode ser um mamarracho com um sabor a românico, ainda pouco elaborado; pode ser algo com um pequeno toque a manuelino; pode ser algo renascença, com algum requinte.

Pelourinho - Face masculina

Nesta falta de cânone podem-se integrar coisas, objectos, que vem de outra era, são mais arcaicos ou arcaizantes, com ou sem significado.

Assim, é habitual, uns degrauzitos, um espaço alto, um sítio que é a «cívitas» e o pelourinho é colocado no local que foi ou é importante, como centro cívico da comunidade.

O pelourinho de Bragança é complicado, mas fácil de «desmontar». Coluna, com qualquer forma de acabamento, base notável e todos sabem o que significariam para os Povos do Norte, ainda em termos totémicos, as «berroas», de que é símbolo a «Porca de Murça».

Pois bem, o pelourinho de Bragança é metido num buraco feito nas costas da «porca»/«berroa», em granito, daí saindo o fuste e depois o acabamento.

Assim, uma tradição mais arcaica, certamente que já tinha personificado o valor totémico da «berroa» para civilizações pré-lusitanas e lusitanas. No aproveitamento deste elemento muito arcaico, vem-se inserir o pelourinho.

Pelourinho - Face feminina

No que se refere à Lousã e ao seu pelourinho, as quatro faces sugerem-nos algumas questões. Estes símbolos quadrifaces aparecem muito na Galiza. De qualquer forma, em termos conotativos pode-se estabelecer uma relação com o caso de Bragança.

O problema que se põe é o da cronologia. Álvaro Viana de Lemos nesse capítulo refere: « ... o pelourinho era de pedra vermelha de Alveite o que denotava ser o pelourinho anterior ao século XVI, pois que os melhores edifícios públicos, igrejas e pedras sigiladas da Lousã já são em calcário». Ora, os materiais nativos da Lousã são o xisto e o calhau rolado e não é material de que se possa fazer algo mais do que muros. Logo, a cantaria tinha que ser importada, em bruto ou talhada. Assim, ou se iam abastecer de calcário à Orla Litoral, à Orla Mezozóica, ou iam à zona do Coentral e traziam granito.

Ficando a Lousã num sítio muito perto dos calcários e relativamente perto dos granitos é natural que para as suas construções mais representativas se tivessem servido deste tipo de pedra. No entanto o arenito ou pedra vermelha de Alveite tem a vantagem de ser uma pedra disponível e que está relativamente próxima. Assim, é possível que a opção do material para o pelourinho, tenha sido perfeitamente casual.

O pelourinho, na minha ideia, inicialmente, teria sido extraordinariamente simples. Pouco mais significava, num certo sentido do que a vara da justiça, uma coluna. E, dentro do simbolismo da coluna, podemos levá-la para os menhires, para os cultos fálicos, etc.

Pelourinho - Face feminina

O Pelourinho aparecia como símbolo de um certo municipalismo e da força da autoridade e da justiça que este sistema implicava. Também é aceite na acepção da liberdade das gentes, numa certa autonomia das gentes o que vai entroncar no municipalismo português, de tradição muito antiga.

 

O Pelourinho da Lousã

Álvaro Viana de Lemos

 

Desde há muito que na Lousã se tem pensado em reconstruir o antigo Pelourinho da vila, encarado como símbolo da jurisdição e autonomia municipal; mas, ia-se sempre protelando qualquer realização pela escassez de dados suficientes para uma restauração conscienciosa. 

[Relatório apresentado à Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, em 6 de Agosto de 1942. Publicado no "Povo da Lousã" de 5 Ago. 1944, 12 Ago. 1944, 19 Ago. 1944 e 29 Ago. 1944].

Destruído completamente há cerca de 70 anos, restava apenas uma vaga tradição local, por a ouvirem a pais e avós, e uma gravura publicado no «Archivo Pittoresco» de 1866-67, ilustrando um artigo sobre a Lousã. 

[Não pode servir este documento, a meu ver, senão como mero guia; não provém de fotografia mas de apontamento desenhado; e não será uma fidelidade absoluta pois que a parte do cunhal, ainda existente, ali representada não corresponde completamente à verdade]

Foi desta gravura que posteriormente saíram, a publicado na 1.ª edição da História de Portugal de Pinheiro Chagas e todas as estampas que figuram em publicações referentes ao mesmo Pelourinho, retocando cada um o original segundo o seu capricho e fantasia. As referências que acompanham aquela primeira gravura não são muito elucidativas e, do mesmo modo, as reminiscências que há bastantes anos ainda me foi dado recolher de pessoas velhas que, na sua infância, o haviam conhecido, embora já deslocado da sua primitiva localização.

O próprio bloco de pedra que encimava o Pelourinho e que, segundo a mesma gravura e as referências que a acompanhavam, tinham esculpidas umas caras, e que diziam fora utilizada durante muitos anos como peso do relógio municipal, acabara por desaparecer, quando da substituição, há cerca de 20 anos, do relógio e da torre provisória em que estava, pelo que agora se ostenta sobre a frontaria da Igreja Matriz.

[Há cerca de 40 anos procurei ver esse peso, mas pelo escuro do local não reconheci os vestígios das tais caras e convenci-me que a pedra ou teria sido trocada ou completamente desbastada para lhe reduzir o peso e o tamanho]

Em 1935, a Câmara da Lousã dirigiu uma consulta ao Sr. Luís Chaves, ao tempo trabalhando no Instituto de Arqueologia, e que pouco antes havia publicado o livro Pelourinhos Portugueses. Sua Ex.ª forneceu os elementos que possuía solicitamente, mas estes nada mais acrescentavam ao que já possuíamos, e teve a amabilidade de enviar um desenho, mandado fazer sobre notas que tinha. Nesse desenho aparece porém um pedestal hipotético de 3 degraus circulares, quando no desenho que figura no seu livro aparece a mesma coluna surgindo de 2 degraus quadrangulares, não menos hipotéticos, pois que nada há escrito sobre o aspecto do Pelourinho quando, antes, estava isolado no meio da praça, segundo é tradição.

Como se desejava proceder com segurança e sem falsear a verdade histórica, hesitava-se em meter mãos à obra. Esperava-se colher ainda mais elementos e, em última análise, determinada com maior precisão a época do primitivo Pelourinho, seguindo a citada gravura e por comparação com os pelourinhos do mesmo tempo e do mesmo tipo, levantar um Pelourinho novo que não podendo ser uma restauração absolutamente fiel fosse, pelo menos, uma reconstrução o mais verosímil possível.

Em 1940, com as comemorações, e estando por esse país fora muitos monumentos em restauro e reconstrução, voltou a pensar-se no Pelourinho da Lousã. Casualmente, havia-se encontrado, ao remover materiais de demolições, a tal pedra com uma argola chumbada e que servira de peso ao relógio. Convenientemente limpa e examinada à luz do sol, lá se descobriram, embora bastante sumidos, os vestígios das partes superiores de duas caras, em gravura pouco profunda e tão tosca que só podiam denotar obra muito arcaica, ou imperícia do lavrante. No resto da pedra eram bem visíveis as mutilações que a aliviaram do seu peso primitivo e também das formas que ali estariam esculpidas.

A parte superior é arredondada como uma bola, mas não absolutamente esférica e mantém o aparelho primitivo apenas com a argola de ferro, que certamente foi posta no mesmo buraco onde estaria chumbado o gato que a segurava ao cunhal da Câmara.

Este bloco, visto de cima, tem uma configuração mais ou menos quadrangular de lados desiguais (0,29 e 0,34). Os vestígios de caras correspondem a duas partes salientes contíguas. As outras duas partes foram desbastadas, sobretudo uma delas foi cavada mais profundamente, certamente, para melhor se poder ajustar ao rebordo do cunhal.

Apesar da tradição, a meu ver sem consistência, de no bloco estarem representadas só 3 cabeças, estou convencido que seriam 4; não só pela posição dos vestígios existentes e forma da pedra, como por ser esse o caso mais frequente em muitos Pelourinhos.

Com este achado, novo alento tomou a ideia de se levantar o Pelourinho da Lousã e o Ex.º Presidente do Município dignou-se encarregar-me, como lousanense dedicado a assuntos históricos e de arte, antigo membro do Conselho de Arte e Arqueologia de Coimbra e, como actual dirigente da Biblioteca Municipal, de apresentar projecto e notas que justificassem o critério a adoptar e servissem de base a realizações.

Consultei novamente por carta o Sr. Luís Chaves e vários livros e publicações que abeiram o assunto, Pelourinhos ou, publicam desenhos e fotografias deles e acabei por me convencer que sobre o da Lousã nada mais se sabe de positivo, além do que já conhecia e que se resume no seguinte:

a) O Pelourinho era de pedra vermelha de Alveite, o que denotava ser o Pelourinho anterior ao século XVI, pois que os melhores edifícios públicos (Igrejas e pedras sigiladas) da Lousã já são em calcário. 

[Trata-se de arenito duro de umas pedreiras exploradas, há muitos séculos no extremo norte do concelho confinando com o de Poiares. É uma pedra geralmente avermelhada mas com manchas que vão do negro ao amarelo. É difícil de trabalhar, não permitindo polido perfeito, nem escultura muito delicada. Figura nas edificações mais antigas da Lousã e arredores, desde o Castelo às casas do século XVIII. No século XVI começam a aparecer os calcários de Lamas, arredores de Coimbra e, de Ançã, que depois se generalizam, mas nas obras mais modestas, continuou-se sempre a usar a de Alveite, que ficava mais próxima e económica]

b) O Pelourinho esteve primeiro colocado no meio do pequeno largo em frente dos antigos paços do Concelho e da velha Igreja Matriz, largo quase quadrado que teria uns 15 a 18 metros de lado. Depois, na 1.ª metade do século XIX (talvez por alturas de 1834, como padrão do antigo regime ou por lhe ligarem erroneamente ideias de ignominiosas expiações e suplícios) ou, por estorvar muito no local onde se realizava o mercado, como se disse, mais tarde, foi removido para o único cunhal, livre de edifícios contíguos, da Casa da Câmara. Ali o prenderam com gatos de ferro de que se conhecem bem os sinais.

Como a rua era naquele sítio estreita e estorvaria o trânsito, suprimiu-se, muito logicamente, qualquer soco ou degraus que o primitivo monumento tivesse. Durante muitos anos a coluna do Pelourinho desempenhou o papel de «frade» protector da esquina do edifício até que, um dia, um embate mais forte de um carro de bois o derrubou. Ninguém pensou em levantar e reparar o «mono» porque, com o provinciano romantismo barato da época, mais se aproximavam ainda as ideias de Pelourinho, Picota e Forca e também pela febre que então desdenhava e destruía sistematicamente o passado. Os pedregulhos foram removidos e desapareceram, sabendo-se apenas, mais tarde, que o remate do Pelourinho fora utilizado como peso do relógio.

c) A coluna era cilíndrica e não de uma pedra só, como se vê claramente na citada gravura.

d) As dimensões do bloco terminal podem-se avaliar, com certa precisão, pelo fragmento que resta, em que se mantém intacta a calote superior. As mesmas dimensões e as da coluna podem inferir-se também (atendendo à escala da gravura) comparando-as com as dimensões do cunhal ainda existente.

e) Uma das caras era barbada, como referem, a tradição, o texto do «Archivo Pittoresco» e o mostra a gravura. Não seria também barbada uma das caras desaparecidas? Na hipótese das quatro caras, assim deveria ser, pois que a simetria produz o equilíbrio e harmonia tão necessários nos monumentos isolados.

A escultura era tão rudimentar e tão pouco saliente que quase se tomaria invisível à distância, sendo feita como a primitiva. Portanto deve agora, embora conservando-lhe a mesma feição ingénua e simples, vincar-se um pouco mais o modelado das figuras, sem lhe tirar o aspecto arcaico.

f) Não podendo colocá-lo no local primitivo deve escolher-se agora sítio apropriado, junto ao actual Edifício Municipal, porém destacado das paredes, como na primitiva. Sendo portanto indispensável que assente sobre um sóco de degraus, podem para isso servir de modelo alguns dos Pelourinhos do tipo e época aproximada.

["Já se encontra erigido no largo junto dos Paços do Concelho o Pelourinho Municipal. Foi construído em pedra da Serra de Alveite, segundo desenho do nosso patrício sr. Álvaro Viana de Lemos e obedecendo aos desenhos, gravuras e restos do que a fúria devastadora do tempo e estupidez dos homens fez desaparecer da antiga praça do município. É aquele monumento o símbolo da liberdade do concelho e atesta a sua antiguidade. Sem ornamentos nem qualquer motivo de beleza artística, é no entanto simples como o nosso povo e elegante como a nossa terra. Construído em cantaria provinda de pedreiras do Concelho da Lousã representa também uma homenagem à própria terra que o levantou. Não regatearemos aplausos à Vereação que de tal obra tomou a iniciativa e a levou a cabo e felicitamos o sr. Álvaro de Lemos por,  com tanta fidelidade histórica, ter feito uma tão interessante e exacta reconstituição do monumento desaparecido" O Povo da Lousã, 25 de Setembro de 1943, p. 4]. [A reconstrução do pelourinho custou cerca de: arranjo da área adjacente, 2.048$60; pag. a pessoal na reconst., 341$00; peças em pedra, 524$00]. [Notas de José Alberto Matos da Silva e José Ricardo Ferreira de Almeida].     

Mais algumas notas e considerações são ainda necessárias para completo esclarecimento do assunto e das minhas afirmações.

Foi durante o tempo em que o Pelourinho esteve na esquina da Casa da Câmara, que ele foi visto, desenhado e sumariamente descrito para o «Archivo Pitioresco» publicado em 1866-67. Os artigos sobre a Lousã foram escritos por Brito Aranha ou, Pinheiro Chagas que por essa época estiveram alguns dias na Lousã. Assim, se explica que a mesma gravura tivesse a honra de figurar na 1.ª edição da História de Portugal, de Pinheiro Chagas, publicado muitos anos depois, dando-o como ainda existente, então, no mesmo sítio. Este facto, deu-lhe notoriedade que se não justificava e foi a causa remota de várias publicações posteriores se referirem a ele como existente [Além do livro da especialidade do Sr. Chaves, é lamentável que até publicações recentes de Turismo o apontem como monumento a visitar! A reconstrução do Pelourinho acabaria definitivamente com o desagradável equívoco. Classificado como Monumento Nacional, Decreto de 16/6/1910, D. G., n.º 136, de 23/6/19101].

Como, para bem encostar a coluna à esquina do cunhal, o bloco superior embirrava naquele, em lugar de partir na pedra do edifício, optaram por desbastar o necessário na peça do Pelourinho, como bem se reconhece no que nos resta daquele bloco. No cunhal são bem visíveis os buracos de chumbadoiros, tapados a cal.

Deste facto, do bloco das cabeças ser desbastado e, da rua, ser visto só de 3 lados, proveio dizer o articulista do «Archivo» que o Pelourinho era encimado por três cabeças. Daqui o lançar-se a lenda semi-erudita das três cabeças representarem os três Filipes, não iria grande distância, porque os amadores da história ligeira comprazem-se em dar foros de antiga e persistente tradição popular, às coisas que não compreendem ou não sabem explicar.

O Dr. Leite de Vasconcelos nas Religiões da Lusitania só se refere àquela lenda incidentemente, para fazer uma afirmação de ciência etnográfica e não para constatar verdade ou verosimilhança, em toda a parte, dentro e fora do país, o povo dá explicações mais ou menos fantásticas dos monumentos notáveis e incompreensíveis.

Não só a configuração da parte intacta da pedra e a localização ali de duas das caras, como o facto de não conhecer mais que um Pelourinho com remate superior de forma triangular, o de Soajo, me convencem que eram 4 as caras ou cabeças e não 3.

Este Pelourinho de Soajo, que em 1907 vi directamente, termina por uma simples lage horizontal com três pontas, sem escultura alguma. No cimo da coluna é que existe uma cara, também pouco saliente e mal feita, no mesmo género das da Lousã.

Como se me pedia um projecto para a obra a fazer e era necessário apresentar desenho conciso e medidas e, os dados de que dispunha não eram suficientes e nem sequer se sabia a época da erecção do primitivo, para se aproximar a reconstrução das formas coevas, procurei fazer mais algumas investigações sobre a época provável e obscura da transferência da sede do Município de Arouce para a actual localização da Lousã, no começo da planície, a 1500 m para o norte do Castelo.

A povoação de Arouce recebeu foral de D. Afonso Henriques que foi confirmado por D. Afonso II e outros reis, que passaram a referir-se à Lousã afirmando a sua correspondência ao antigo Arouce. Por fim D. Manuel dá novo foral à terra e nele, referindo-se ao anterior, é que aparece a confusão entre Arouce e Foz de Arouce, povoação nova a alguns quilómetros de distância; confusão esta só explicável pela acumulação de serviço na repartição de Rui de Pina, que viveu na época em que mais forais foram passados.

Ora, não sendo o Pelourinho notoriamente da época manuelina, como tantos outros, contemporâneos portanto, dessa grande distribuição de forais, e sendo, pelos elementos que possuímos, de feição tão arcaica, não será longe da verdade atribuir-lhe antiguidade que remonte aos primeiros tempos da monarquia, datando talvez de quando, aumentada a população no actual local, mudaram as autoridades e portanto a sede do Município, ou até, talvez, erigido para comemorar esse facto. E tudo isto se passou anteriormente a D. Dinis, época de que há notícia ser a Lousã actual, já sede de freguesia, o que necessariamente implicava ser o maior e mais importante núcleo populacional da região.

Perante tão incertos elementos e escassez de documentação, só comparando com outros Pelourinhos desse período e feitos em material igualmente difícil de afeiçoar, se poderá completar o que temos de positivo e tirar as conclusões que nos aproximem mais da verdade.

Nesta conformidade, pensando quão numerosos são os pelourinhos, simples e toscos, trabalhados em pedra áspera, da região de Bragança, tratei de consultar a vasta obra do erudito P.e Francisco Alves, abade de Baçal e de me pôr directamente em contacto com S. Ex.ª a quem dirigi consulta circunstanciada, sobre as principais dúvidas que ainda tinha.

Havia ainda para resolver o caso da base. Nada se sabendo sobre como ela teria sido na primitiva, só havia também o recurso de operar por comparação. Nos Pelourinhos do distrito de Bragança entre os mais simples, predomina a base de forma quadrada e de 3 degraus. Em geral, esses degraus, quando o trabalho do lavrante não é muito cuidado nem minucioso, são simples e sem mocheta ou qualquer filete decorativo.

No próprio concelho da Lousã existe ainda um outro Pelourinho da mesma pedra, que tem 3 degraus; embora seja de tempos mais modernos (século XVII). É o de Serpins, pequeno concelho outrora dependente do mosteiro de Lorvão e incorporado no da Lousã em 1836.

Não sendo possível incorporar na nova construção, por já muito mutilado e incaracterístico, o único fragmento autêntico do velho Pelourinho, toma-se necessário fazer tudo de novo. E, para de certo modo dar satisfação à tradição das cabeças ou dar um motivo ornamental ao remate é preciso pôr lá as caras e tomar mais salientes os seus traços, embora, é claro, sem acabamento e perfeição próprias de uma obra moderna de escultura.

Quanto à localização do novo Pelourinho também o caso foi devidamente ponderado.

Na praça, onde se dizia ter estado antes de fixado no cunhal da Câmara seria hoje antiestético colocá-lo e, estorvava o serviço do mercado que ali se realiza semanalmente. A antiga praça que, no tempo da velha Igreja era quase quadrada e com um leve declive, foi completamente transformada e ampliada. O seu próprio declive deve ter aumentado ao fazer-se a concordância, num só plano, dos terrenos superiores com o nível da velha rua direita. E, seria antiestético porque, a levantá-lo ali, ficaria amesquinhado, pelas suas proporções, em relação à praça actual, e também por vir a ficar na parte inferior e não no centro. Para mais, o edifício dos antigos Paços do Concelho mudou de função e alberga hoje os serviços do Correio.

Pensou-se em colocar o Pelourinho, como seria lógico, no centro do jardim do novo Edifício Municipal mas notou-se que sendo muito vasto este espaço, só seria razoável tratando-se de monumento mais grandioso e que se aproximasse do estilo do século XVIII, que é o do Edifício e do jardim, em cujo centro está previsto, no projecto, uma fonte monumental. Pensou-se também no pequeno largo da Biblioteca, em frente de uma das faces laterais do mesmo edifício, mas como a esta fachada faltava a imponência da principal ou mesmo da posterior, optou-se por o colocar diante desta última, onde existe espaço conveniente, em frente da porta, que na realidade mais frequentemente é utilizada. Esta fachada não é uma simples traseira do edifício, se outra não houvesse, bem poderia figurar como principal, não amesquinha portanto o novo monumento e é o sítio mais cómodo e portanto apropriado.

 

NOTAS SOBRE O PROJECTO E DESENHOS JUNTOS [Como se refere no «Archivo Pittoresco» que uma das caras era barbada, não há inconveniente que se vinque esse pormenor e para equilíbrio, ao pôr 4, se faça outra simétrica semelhante. Como seria desagradável à vista e mesmo inexplicável para quem o observasse, levar a pretensão de fidelidade construindo o novo bloco terminal de forma oblonga e razoável que se lhe dê a forma redonda com um diâmetro médio (0,32). A coluna pode ser cilíndrica ou, para melhor estabilidade e perspectiva, ligeiramente cónica (0,01 a 0,02 entre os diâmetros dos extremos].

 

Altura total em que fica o Pelourinho 3,40 m
Degraus (3), de 0,20 cada 0,60 m
Soco, para melhor fixação e concordância 0,35 m
Coluna 2,00 m
Bloco terminal, com as cabeças 0,45 m
Quadrado da base formando 1.º degrau 2,40 m de lado
           "                    "            2.º degrau 1,80 m       "
           "                    "            3.º degrau 1,20 m       "
Largura dos degraus 0,30 m
Dimensões do fragmento do bloco primitivo (visto de cima) 0,29x0,34 m
Diâmetro da coluna (segundo a gravura antiga, em relação ao cunhal existente) 0,20 a 0,22 m

 

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