free web hosting | free hosting | Business Hosting | Free Website Submission | shopping cart | php hosting

PAISAGEM

 

desdobrável da Lousã

 

Com a exploração intensiva e desordenada de matos e pinhais e sobretudo com a indústria destruidora do carvão, feita durante o século XIX, a Serra da Lousã chegou a estar quase completamente desnudada e a apresentar um aspecto desolador. Os seus ribeiros tinham-se transformado em torrentes rápidas e destruidoras, com grave prejuízo da lavoura, por não permitirem uma irrigação metódica e demorada dos campos; o ravinamento profundo das encostas acentuava-se progressivamente e as nascentes não se mantinham. Os baldios sendo de todos, todos procuravam tirar deles o máximo proveito sem ninguém deles cuidar; a serra desvalorizava-se economicamente e perdia toda a beleza no seu aspecto geral e dos seus antigos recantos frescos e pitorescos. Restava apenas a imponência majestosa das suas gigantescas proporções, numa atmosfera de desolação e tristeza.

O século XX entrou com entrega dos primeiros baldios Municipais aos Serviços Florestais e progressivamente se tem feito uma arborização sistemática, da planície para os pontos mais elevados. Nestes últimos tempos tem-se operado uma verdadeira ressurreição florestal, de inapreciáveis consequências para o futuro sob os pontos de vista económico, estético e turístico e, certamente também, meteorológico e sanitário. As novas plantações com os seus ramais de estradas próprias, abrangem agora uma área enorme; só se conservando, ainda como baldios, os terrenos indispensáveis à vida agrícola das pequenas aldeias da Serra.

Foi também na 2.ª metade do século XIX que, mercê de vários factores, se desenvolveu, na região da Lousã a emigração para o Brasil, seguida, já nos princípios do século XX, da emigração para a América do Norte. A melhoria económica que daí resulta determinou, além dum grande parcelamento das terras e da sua passagem a outras mãos e de um mais cuidado e extensivo cultivo das mesmas — numerosas edificações que trouxeram, à vila e seus arredores, um melhor aspecto de vida e prosperidade.

A política do fomento geral do país, traduziu-se na Lousã depois de 1860, sobretudo pela viação. Construída a estrada da Beira, e depois o ramal que nos serve, nunca mais deixou de se promover aqui a construção de estradas modernas. O Estado ligou-nos então com Miranda e Góis e iniciou a estrada para a Castanheira, só terminada há poucos anos. Depois, o município não tem cessado de valorizar as principais povoações do concelho, com boas estradas que as ligam entre si e com a sede. Os serviços florestais, construindo estradas para seu uso, tem concorrido também para o progresso da viação e turismo da Serra.

O nosso caminho de ferro, cuja construção iniciada por 1889-90, pela Companhia dos Caminhos de Ferro do Mondego, só continuado muitos anos depois pela Companhia Portuguesa e inaugurado em 1906, trouxe à Lousã uma grande actividade e incremento. Estabeleceram-se novas industrias, desenvolveu-se o comércio e a camionagem na região, fizeram-se novas edificações, abriram-se ruas, iluminou-se electricamente a vila.

A concessão da linha férrea fora pedida até Arganil, mas a sua construção não passou do concelho da Lousã. Na vila teve o seu terminus durante cerca de 30 anos e agora ainda apenas vai até Serpins, que à Lousã pertence.

Estes factos, juntos com a construção de edifícios públicos, como a nova escola, os Paços do Concelho, torre da igreja, estabelecimento de hotéis e variadas casas de comércio, dão à Lousã uma vida e aspecto modernos. A Lousã é hoje muito visitada e apreciada e, conhecidas as suas belezas naturais e caracter hospitaleiro dos seus habitantes, bem pode aspirar a desenvolver o turismo para o qual tem excepcionais condições. A Serra, que para o sul lhe é uma barreira e só serve de estorvo para a sua expansão regular, com o esforço coordenado de todos os lousanenses e amigos da Lousã é uma nova esperança... Se a camionagem, facilitando o escoamento do trafego da Castanheira por outras vias, desvalorizou a estrada da Serra em que a Lousã durante 50 anos tanto confiou, desenvolvendo-se o turismo, com base na Lousã, a Serra e grande parte da sua linda estrada, serão sempre um valor que a todos aproveita.[A.L.]

trevim.jpg (41187 bytes)

Do Trevim... aos Penedos de Góis... à Serra da Estrela. (Fot. J.Catela - mar. 2000)

"...subíamos por encostas menos empinadas, ou pelo dorso plano dos montes, e julgávamos próximo o Trevim, que apesar da ausência do nevoeiro não tínhamos ainda avistado; quando ao voltar um pouco para a direita demos com os olhos nele em considerável distância, e ainda bastante elevado, com a sua pirâmide no cume sobre esta imensa acumulação de serranias. O caminho até aqui livre de pedras soltas e fragas, torna-se nestas alturas um pouco mais escabroso: mas sem precipícios, sem rochedos escalvados, sem penhascos, que nos impedissem o trânsito, fomos apear-nos junto da pirâmide.

Assim como há sentimentos fortes, que nem todos experimentam, e muito menosprezam como exaltações, de romance; assim há também comoções profundíssimas, comoções que acendem na alma um fogo até ali desconhecido, e como que lhe tornam palpável a suma grandeza do seu ser, mas que nem todos são capazes de sentir. Subi, se tendes um coração dotado de sentimentos elevados, ao pináculo dos montes; e sentireis esta verdade. Ali a vossa alma respirará um ar puríssimo, que sem estorvo gira liberto dos miasmas pútridos dos corpos físicos, mais livre ainda dos miasmas, cem vezes mais pestíferos, dos espíritos corruptos, que inundam lá por baixo aldeias e cidades; as serras não sobranceiras e dependuradas sobre as cabeças, mas humildes e submissas se curvam debaixo de vossos pés, enquanto o céu, mais vizinho, como que parece tocar-se com a mão e abaixar-se, para que mais prestes deixeis a terra do exílio, e subais à eternidade.

altar.jpg (66014 bytes)

Altar do Trevim - Marco Geodésico

Todos estes sentimentos, todas estas comoções as experimentámos no Trevim, Levantado de todos os lados, e como figurando um altar da natureza [Este elevado cabeço é conhecido, dentro e fora do distrito da Lousã, pelo nome de Altar do Trevim. — A história, ou a fábula conta, que pelo tempo de Sertório, e pelas mesmas causas se refugiara na Lusitânia Estela, Augur Romano, e Triumviro (por ventura dos que tinham por ofício a reparação dos edifícios sagrados, e eram escolhidos de entre os mais qualificados) homens de grande nome e piedade, ao modo dos pagãos1 o qual erguera altares e fazia sacrifícios na Estrela, e no Trevim, ficando estas serras com o seu nome, Estrela de Estela; e Trevim, abreviado de Triumvir; e que este último se ficou chamando "altar" da ara, sobre a qual o agoureiro oferecia aos Deuses os seus votos. — Miscelânea/Miguel Leitão de Andrada, Dial.16], a 2500 pés acima do nível do mar, e não tendo por toda aquela redondeza alguns competidores, apenas nos confins do horizonte o excediam a serra da Gata, ao Nascente, na Espanha, e ao Nordeste o Malhão, na da Estrela. Dois como lagos extensíssimos se abriam a nossos pés: o de Leste era parte circuitado pelas serras da Estrela, do Catrão, e S. Vicente: do Norte para o Nascente corriam os seus limites pelo alto pico da Senhora das Preces na serra da Aguieira, e logo atrás o mais erguido cume da Estrela; adiante a sequência destas serras abatendo sobre a Beira Baixa, e acabando de repente em um ângulo com a serra do Catrão: a qual logo aí se levantava majestosa, e, seguida pela de S. Vicente continuava o circuito de Nascente para o Sul.

Espessa névoa nos tolhia a vista dos belos campos do Ribatejo, e planícies do Alentejo, que por esta extremidade haveríamos de avistar.

O grande lago do Poente era orlado pelo Norte com as serras da Estrela e da Mucela, e lá ao longe pelo Noroeste com as serras de Monte de Muro, Caramulo, e Bussaco. Á esquerda, este monte, consagrado pela piedade, pela glória, e pela poesia, como que soltando-se da cordilheira de Alcoba, vinha unir-se por meio da serra da Mucela à da Estrela. Á direita, as serras do Catrão e S. Vicente nada mais pareciam que uma sequência daquela soberana de nossas montanhas, que no centro do quadro prendia, e abraçava todas estas diferentes serranias.

 

Os saudosos campos do Mondego,

a nossa pátria, e o Atlântico, estavam cobertos com as névoas, que há pouco descrevemos.

Certamente que as muitas, diversas, e belíssimas paisagens, que a névoa nos não consentiu que avistássemos, nos tornariam esta manhã mais curiosa e variada: mas este mesmo inconveniente nos serviu a fixar melhor na memória o desenho do país, porque não deixando o nevoeiro ver outra coisa senão a crista das montanhas, ficavam estas mais salientes e distintas.

A um quarto de légua, pouco mais ou menos, do Trevim, avistámos uma pequena povoação com os dois poços da neve. Os Geógrafos, que por ocasião destes depósitos, dos quais vão regularmente para Lisboa muitos carros de neve no verão, atribuíram o seu comércio à vila da Lousã, escreveram sobre informações superficiais e inexactas. Estes poços pertencem a contratadores de Lisboa, os quais tem um comissário no Coentral, que dirige a junção da neve no inverno, e a sua remessa no estio. Ao cabo da ladeira do Nascente, e tomando um pouco para o Sul, estende-se a ribeira de Pêra, que nos pareceu tão amena, como fértil, e é regada pelo Alge, que nasce do Trevim. Na ladeira do Poente, e a pequena distância da pirâmide uma pequena fonte, que depois nos disseram preciosa, é a origem do Arouce. Um grande rebanho pascia deste lado; e um dos pastores trouxe-nos na sua caldeira excelente leite, que saboreámos encostados à pirâmide. Distante dos seus, ao rigor dos sois e das chuvas, sacudidos pelos ventos, observando muitas vezes o sol radioso sobre as suas cabeças, e o raio fuzilando debaixo de seus pés, estes pobres pastores vivem pela serra desde Maio até Agosto.

E quanto à pirâmide, que coroa o Trevim, a sua origem não excede os fins do século passado e começo do presente. O engenheiro Ciéra, encarregado pelo Príncipe Regente, depois El-Rei D. João VI, da triangulação do reino para o fim de poder traçar-se um exacto mapa geográfico do país, de que temos tanta falta, estendeu os seus trabalhos a quase todo o reino, e fez levantar pirâmides nos pontos principais; mas interrompido pelos acontecimentos, que desde a mesma época tem sempre embaraçado o adiantamento das cousas, portuguesas, não pôde terminá-los. Recentemente alguns engenheiros portugueses; e entre eles o Sr. Filipe Folque foram encarregados de rectificar e concluir a obra de Ciéra.

Os habitantes da Lousã tinham nos prevenido contra o ar frio, e quase sempre sibilante do Trevim: encontrámos uma doce primavera. Mas temendo o sol de Julho na descida para o engenho, fizemo-nos de volta seguindo a estrada, que nos inculcaram por melhor, e que talvez exceda a duas léguas de distância.

Pela grande lomba das serras, por um terreno em grande parte capaz de produção, e sempre suave e aprazível, viemos descendo até ao ponto, que no dia 7 visitáramos: e bem que já aí não encontrássemos os pastores com os seus gados, nem as misteriosas sombras de entre noite e dia, mas tão somente os nevoeiros, que despedidos da planície volviam a postar-se sobre a serra, podemos com maior facilidade desfrutar o risonho painel dos campos da Lousã agora mais brilhantes com o sol da manhã, que por entre as escuras oliveiras fazia sobressair a alvura dos casais, dos muros, e pilares, e a fresca verdura das searas...[Uma viagem à Serra da Lousã no mês de Julho de 1838/Adrião Pereira Forjaz de Sampaio].

 

 

 

Aspectos da Lousã, 1988

Quadro de Sérgio (3º Salão de pintura Naif - Lousã, 1988)

Vista da Lousã naif