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OS NEVEIROS

Herlânder Machado

 

IMÓVEIS DE INTERESSE PÚBLICO

Para além deste majestoso cenário oferecido pela Natureza, aqui, a cerca de 1.200 metros de altitude, estamos também em presença de algumas significativas marcas do Passado.

Esta capela e os poços neveiros que a rodeiam constituem documentos da História, bem se justificando, afinal, que o decreto do Governo N.º 1/86, de 3 de Janeiro, em seu artigo 2.º, os tenha classificado "como imóveis de interesse público".

É de salientar, a propósito, que já em 1936, o Professor Virgílio Correia, da Faculdade de Letras de Coimbra, defendeu na Imprensa que "os Poços da Neve, pela sua construção e raridade, mereciam ser considerados EDIFÍCIOS DE INTERESSE PÚBLICO".

Esperámos, pois, cinquenta anos para que tal se concretizasse!...

ESTA CAPELA DO GLORIOSO SANTO ANTONIO DE LISBOA

A MANDOU FAZER JULIÃO PEREIRA DE CASTRO REPOSTEIRO

DO NOSSO REINO DA CÂMARA DE SUA MAJESTADE E NEVEIRO

DE SUA REAL CASA EM TERRA SUA ANO 1786

Foi, pois, construído este templo no ano do reinado de D. Maria I.

Mas estes poços neveiros são seguramente muito mais antigos. Estamos mesmo em crer que eles são muito anteriores a JULIÃO PEREIRA DE CASTRO, de quem só há notícia devidamente documentada a partir de 1757 em alvará de el-Rei Dom José I, também assinado pelo Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal.

Como se verifica pela inscrição da lápide que se pode ler na fachada da Capela de Santo António da Neve, JULIÃO PEREIRA DE CASTRO ainda era NEVEIRO DA CASA REAL depois de decorridos 29 anos sobre a data — de 23 de Junho de 1757 — em que el-Rei Dom José I o nomeou para esse cargo.

É um facto relevante que, todavia, não me impede de pensar que antes e depois de Julião Pereira de Castro há uma longa história digna de ser contada, ainda que a traços largos...

E é isso que eu vou tentar fazer, confiado na bonomia de quem me escuta.

Efectivamente, se o tema desta despretensiosa palestra é o da História dos Neveiros, não posso, nem devo circunscrevê-la a Julião Pereira de Castro ou à Capela de Santo António da Neve que hoje completará, porventura, duzentos anos.

Este belo cenário convida-nos ao enlevo e à meditação... Vamos aceitar tal convite...

DE TIRSO DE MOLINA A EÇA DE QUEIRÓS

Passado... Presente... Futuro...

Será um lugar-comum dizer, aqui e agora, que as coordenadas do Tempo e do Lugar situam o Acontecer... Definem o cenário dos factos... Registam a evolução e o Progresso... Assinalam os momentos de Grandeza e de Miséria... Testemunham a Aventura e a Criatividade dos Homens... Anotam, enfim, a passagem de múltiplas gerações...

Em Verdade, é no Tempo e no Espaço que se guardam os Arquivos da História.

Aqui e agora, nós usufruímos o conforto que, à custa do trabalho e do sonho, de homens que já não são deste Mundo e de outros que ainda prosseguem a corrida, em passagem do testemunho, nos tem sido oferecido pelos avanços da Técnica e da Ciência.

Felizmente, houve muitas conquistas valiosas — algumas bem ousadas — outras mesmo revolucionárias... Mas, apesar do seu sensacional aparecimento, vieram a tornar-se, também, nos tempos hodiernos, em coisas que já são banais.

Sim, hoje é lugar-comum não ter de ir à fonte ou ao chafariz ou, na cidade, chamar o aguadeiro, para ter água em casa... Não ter de queimar velas ou acender candeias de azeite para iluminar as salas... Não ter de conservar no sal ou na banha a carne que se consome... Não ter de ir ao mato ou às torgas, nem de utilizar o forno da lenha ou o fogareiro de carvão para poder cozinhar...

E, se quisermos água fresca, não necessitamos de nos servir das porosas bilhas de barro que as nossas avós ou as bisavós ainda colocavam ao fresco das janelas nos meses de Verão...

— Onde vai tudo isso!

Hoje, em vez da salgadeira, há o congelador... E as bilhas de barro ou são simples elemento decorativo do artesanato tradicional ou cederam o seu papel de outrora aos prestimosos e já indispensáveis frigoríficos de agora.

Mas a verdade é que, na História dos inventos, o frigorífico só apareceu há cerca de oitenta anos e este ainda levou algumas décadas para se afirmar na sua produção em termos industriais. É, pois, uma aquisição relativamente recente do nosso conforto quotidiano.

Hoje, retiramos rotineiramente do frigorífico as pedras de gelo que quisermos... Só depende do nosso gosto a frescura de um "Scotch Whisky" ou a de um vermute "on rock".

E se nos apetecer um sorvete ou um doce gelado, nós não teremos, de igual modo, quaisquer problemas.

Na verdade, também se tornou lugar-comum o consumo de bebidas frescas e o dos doces gelados.

E, como é bem sabido, o gelo tem ainda aplicações, em tratamentos de Medicina Curativa.

Louvemos, pois, o precioso invento do frigorífico, que se registou em 1905.

Mas impõe-se-nos recordar, neste momento, que, muito antes da invenção do frigorífico, já se consumiam, em Portugal, as bebidas e os doces gelados e que, do mesmo modo, já eram tratados os doentes com aplicações de gelo.

Para não recuarmos muito no tempo, lembremos, por agora, que o grande escritor Eça de Queirós, cuja vida decorreu de 1845 a 1900, escreveu, no primeiro capítulo do seu romance A TRAGÉDIA DA RUA DAS FLORES, a seguinte cena, passada no Teatro da Trindade, em Lisboa.

"... E da porta do balcão, Marinho, em bicos dos pés, fazia acenos a Dãmaso. Ele reparou, precipitou-se, pisou uma criança que fez beicinho, derrubou o binóculo duma senhora obesa. Ia pálido.

Mesmo uma velha, que se repimpava por trás de Vitor, disse com satisfação:

— Deu-lhe alguma cólica.

— Põe-se a comer neves — murmurou a outra, cujo génio parecia amargo".

Pois é, minhas senhoras e meus senhores, noutros tempos comia-se a neve e também era com esse produto da Natureza que se refrescavam as bebidas.

E já que falámos de um grande escritor português do século XIX, será também oportuno recuar muito mais no tempo e recordar igualmente o que escreveu, em 1615, o grande dramaturgo espanhol TIRSO DE MOLINA, no primeiro acto da sua célebre peça de teatro que tem por título O BURLADOR DE SEVILHA, na qual se descreve LISBOA:

NIEVE DA SERRA DA ESTRELA

QUE POR LAS CALLES A PITOS

PUESTA SOBRE LAS CABEZAS

LA VENDEN...

 

NÃO SÓ A SERRA DA ESTRELA

Mas não foi só a Serra da Estreia — cujos covões cobertos de neve e gelo ainda hoje constituem belo espectáculo natural — que forneceu a neve, que, pelo menos, desde o século XVII, chegava a Lisboa.

Na serra de Montejunto, os frades dominicanos, cujo convento se situava junto à ERMIDA DA SENHORA DAS NEVES, aproveitaram as condições do clima e do terreno e abriram tanques profundos, que entre si comunicavam, e recolhiam o gelo que ali se formava e que forneciam a Lisboa.

E a Casa Real também viria a consumir, durante múltiplos anos, a neve que era recolhida na serra da Lousã, mais propriamente num dos seus mais elevados cabeços, de onde se dominam profundos valeiros, entre os quais aquele onde se situa o Coentral essa aldeia multissecular cujo nome também ficou ligado à História dos Neveiros.

Aqui, no Cabeço do Pereiro, que a devoção de Julião Pereira de Castro enriqueceu com a nota espiritual da construção duma capela dedicada ao santo taumaturgo, existiu a grande fábrica da neve. E o local quase mudou de toponímia, pois hoje é mais conhecido por Santo António da Neve.

Com o aproveitamento da neve surgiu o ofício dos NEVEIROS.

Aliás, parece ser muito antiga a prática da utilização da neve e do gelo para refrescar bebidas e fabricar doces gelados. E autores há que defendem ser devida aos Árabes a iniciativa deste aproveitamento. Assim parece de.facto...

Seja como for, sabe-se bem que, em Portugal, figura a neve entre os produtos dados espontaneamente pela Natureza que foram aproveitados pelo homem, na Serra da Estrela, na Serra de Montejunto e na Serra da Lousã-Coentral.

Se atentarmos, entretanto, na continuidade da cordilheira que apresenta em ligação as serras da Estrela, de Açor e da Lousã, compreenderemos de imediato as razões por que, nos documentos históricos chegados ao nosso conhecimento, se aluda sempre à neve da Serra da Estrela quando é certo que a maior parte da neve que chegava a Lisboa provinha da Serra da Lousã.

Sendo certo, como vimos nos versos de Tirso de Molina, que já se vendia neve, nas ruas de Lisboa, em 1615, é óbvio também que a organização oficial da actividade dos neveiros só mais tarde se formaliza, através de contratos com privilégios e condicionalismos.

No dizer do historiador Lúcio de Azevedo, "o negócio dava o nome a um ofício especial, de neveiro, exercido em 1619 por um tal Paulo Domingues (...) que nesse ano contratou com a Câmara o fornecimento diário de, pelo menos, 96 arrobas, de 1 de Junho a 30 de Setembro".

E o referido historiador logo acrescenta que "o interesse da Câmara pelo assunto provinha talvez da visita de Filipe II de Espanha à capital, que nesse ano se realizou, mas do nome do ofício se colige, contudo, que seria permanente".

Estamos firmemente convencidos de que o ofício dos NEVEIROS já existia anteriormente, mas temos de reconhecer que só há documentação histórica conhecida a partir desse ano de 1619, em que ocorreu a visita do monarca espanhol Filipe III a Portugal, onde, aliás, só esteve cerca de 6 meses, mais precisamente, de 10 de Maio a 24 de Outubro.

Tal período coincide, portanto, com o do contrato celebrado entre a Câmara de Lisboa e o NEVEIRO Paulo Domingues para que as ucharias reais recebessem diariamente 96 arrobas de neve para que o Rei e a sua Corte pudessem comer doces gelados e beber agradáveis refrescos. E há que recordar que o Rei espanhol deve ter chegado muito sedento a encalorado a Lisboa, pois, a seu pedido, assistira em Évora a um Auto de Fé da Inquisição em que foram queimados vivos quatro homens e oito mulheres.

EPISÓDIOS CURIOSOS

Criado ou não em 1619, o certo é que o ofício dos Neveiros continuou para além do regresso do monarca espanhol a Madrid. E manter-se-ia por largos anos — com épocas de abundância e épocas de crise — havendo dele notícias que vão do século XVI aos finais do século XIX.

Efectivamente, em 1623, era Neveiro da Câmara de Lisboa o italiano Marco António Cacilano. Em 1671, esse ofício estava a cargo de António Correia. Em 1683, era Neveiro um tal Nicolau Vaz... Em 1699, tinha o contrato da neve-o italiano João Baptista Rossati...

Em tão longo historial, há a assinalar episódios que se referem a conflitos de interesses, a concorrência desleal, a penas de prisão e até a fugas para o Estrangeiro. Faremos uma breve alusão a alguns desses incidentes.

Em 1714, o Contratador da Neve era o Sargento-Mor Manuel Abreu Henriques que se queixa de um tal Eugénio da Cunha por este "mandar vir" directamente, "por sua conta, uma ou duas cargas de neve cada dia para o provimento da sua loja".

Em 1717 foi esse Eugénio da Cunha o Neveiro da Casa Real — mas, então era outro o contratador da neve da cidade e a História ainda regista o nome do Sargento-Mor Manuel de Abreu Henriques como beneficiário desse contrato. Mas, ao que parece, o Neveiro da Casa Real vendia a neve, abusivamente, nas suas lojas de Lisboa.

Dessa sua actividade paralela se queixará, também, em 1718, o contratador da neve da Corte, Capitão Pedro Fernandes Castelo Branco, pois Eugénio da Cunha continuava a abastecer-se directamente da neve que vendia nas suas lojas do Rocio e do Terreiro do Paço.

Assim, Lisboa continuaria a assistir ao conflito de interesses entre o fornecedor do Paço e o neveiro das lojas da cidade...

Desta vez, a queixa resulta em 30 dias de cadeia para Eugénio da Cunha e para o seu ajudante — ou sócio — Felix Rodrigues.

Em 1724 era António de Oliveira Lebrão o detentor do privilégio de fornecer neve à Casa Real.

Em 1744, dá-se a fuga do francês TROFIMO PAILLETE, a quem, três anos antes, el-rei D. João V concedera o privilégio exclusivo do fornecimento de neve a Lisboa e à Corte Real, durante dez anos.

Deste francês se irão queixar ao Rei dois homens de negócios da praça de Lisboa. São eles JOÃO ROSE e PEDRO FRANCALANZA. E acusam TROFIMO PAILLETE de os ter "burlado, fugindo subitamente do reino" depois de, como seu sócio, os ter feito gastar quarenta mil cruzados em obras efectuadas nos tanques da Serra de Montejunto, como então foi confirmado pelo arquitecto Carlos Mardel.

Em 1750, apesar de ter sido arrematado à francesa CATARINA RICART o fornecimento da neve, por um período de 10 anos, o Senado de Lisboa, dada a carência do produto então registada, autorizou MARCOS ALVES a importar de Espanha a neve que, devido a sucessivas trovoadas, em Portugal faltara.

E concluiremos esta breve enumeração de alguns dos curiosos episódios relativos ao consumo da neve em Lisboa com mais uma nota singular referente ao ano de 1729:

Em exposição dirigida a Dom João V diz António da Fonseca Brandão, "natural da Serra da Estrela, comarca da Guarda" que, tendo sido admitido ao concurso público da Câmara para o fornecimento de neve ao povo de Lisboa, podia assegurar que não faltaria com esse produto, "pois" — assim escreveu ele em sua súplica a El-Rei — "tem descoberto meio para fazer aviso desde esta corte à Serra da Estrela, em uma noite, das cargas que hão-de vir no dia seguinte, e é curioso pelo segredo com que se há-de executar, e juntamente tem novo modo de condução para que as cargas cheguem com dobrada neve da que trazem ao presente..."

E este concorrente — que já tinha estado preso pela Junta do Tabaco, por dívida da real fazenda, diz, por fim, na sua exposição ao Rei Magnânimo, que "teme ser preso por alguma aleivosia que se lhe faça (...) pois até lhe põem o nome de mágico, em razão de dizer que poderá em uma noite (...) dar aviso na Serra da Estrela da neve que há-de vir no dia seguinte".

Como salienta Eduardo Freire de Oliveira "o abastecimento de gelo, tanto para provimento da Casa Real como da cidade, era feito por arrematação pública e por tempo de seis anos" mas há arrematações por prazos diferentes e o contratador da neve, "além de outras condições estipuladas nas escrituras, obrigava-se ao constante fornecimento de gelo em todo o ano, o que nem sempre cumpria, como se verifica por diversos documentos".

AS "FÁBRICAS DA NEVE"

— Na Serra de Montejunto, os monges dominicanos haviam construído no seu convento, cujas origens remontam ao século XII, os tanques, mais ou menos profundos e interligados por estreitas passagens, onde recolhiam o gelo que enviavam para Lisboa. Era — digamos — um sistema de vasos comunicantes...

Segundo o testemunho de CARLOS MARDEL, "Sargento-Mor de Infantaria com exercício de engenheiro na corte, arquitecto de Sua Majestade" (...) que visitou, em 1748, a fábrica da neve da Serra de Montejunto, "esta consiste em poços para guardar e conservar a neve, em tanques para fazer gelo, em poços de água para se repartir neles, como também em casas e mais obras desta oficina, edificadas no decurso de seis anos..."

Estas obras de beneficiação e acrescentamento dos tanques de gelo concebidos pelos frades dominicanos ficaram a dever-se- à burla praticada pelo francês Trofimo Paillete que tanto prejuízo causou aos seus dois sócios portugueses.

Se é certo que a proximidade de Lisboa favorecia esta "fábrica" também parece óbvio que a sua produção não seria avultada.

— Na Serra da Estrela, a neve conservava-se nos covões, isto é, nos pequenos vales naturais e nas neveiras.

Acondicionava-se o gelo, cobrindo-o de palha e era transportado para Lisboa em bestas, carros e barcos, de modo que no seu preço, bastante elevado, se reflectiam as grandes

despesas que se faziam na condução.

É mais ou menos nestes termos que Eduardo Freire de Oliveira se refere à actividade neveira da Serra da Estrela no seu monumental trabalho histórico intitulado Elementos para a História do Município de Lisboa obra constituída por 15 valiosos volumes.

Sendo esta a "fábrica" de maior e mais constante produção é, no entanto, a mais distante.

Ali, se as condições naturais, de clima e de altitude, asseguravam a conservação da neve e do gelo, sem onerosos trabalhos de resguardo nem necessidade de construção de tanques ou de Poços, enfrentava-se o problema do moroso transporte para Lisboa.

Quanto labor!...

Quanto dispêndio!...

Em nosso entendimento, muita da documentação refere-se à actividade dos Neveiros cita a Serra da Estrela em vez de se reportar à Serra da Lousã porque — como atrás dissemos — a longa cordilheira que parte da Estrela se estende de tal forma que acaba por confundir três serras — a da Estrela, a do Açor e a da Lousã-Coentral.

Nesta linha de pensamento, afigura-se-nos que seriam certamente os poços neveiros do Coentral aqueles a que se refere o documento que passamos a transcrever:

"1732 — 5 de Março — Carta do Secretário de Estado DIOGO DE MENDONÇA CORTE REAL ao escrivão do Senado da Câmara:

O portador, que se chama JOÃO BAPTISTA LIVRE, vai, por ordem de sua Majestade, ver os poços da neve da Serra da Estrela, para que, sendo necessário fazer mais alguns poços, o ponha em execução, para que não se experimente falta dela nesta Corte; e leva as ordens para o Juiz de Fora de Seia.

É Sua Majestade servido que pelos senados se lhe mandam dar cinquenta mil réis de ajuda de custo, por esta vez somente: o que participo a V.M.cê, para que seja presente aos senados".

Mas se poucos são os documentos que concretamente aluem ao Coentral e aos seus Neveiros, restam-nos três dos sete poços de outrora, a capela de Santo António da Neve (1786), as casas de Julião Pereira de Castro (1775) e o valioso testemunho oral transmitido pelos últimos participantes na actividade dos NEVEIROS DO COENTRAL cujo depoimento pudemos recolher há mais de 30 anos, quando as suas idades já rondavam os 90 anos...

OS NEVEIROS DO COENTRAL

Fronteiros a esta capela estão os três poços que nos restam. Eles exibem ainda o tosco das suas construções. Dois deles são octogonais e o terceiro é circular. Mas, no seu interior, são todos bem redondos.

Estão cobertos por abóbadas de pedra em forma de sino achatado e todo o conjunto foi edificado com a pedra negra da Região.

Cada poço tem uma só porta, estreita, virada para Nascente, como que para evitar que, quando o sol é mais forte, possa entrar pela estreita porta e derreter a neve ali guardada.

Imaginem a azáfama que por aqui se desenvolvia desde o Inverno até ao tempo quente...

Afadigava-se o mulherio e os garotelhos a apanhar neve para as cestas.

RAPAZES E MULHERIO

EM VAI-VEM QU'ERA CANSEIRA

DA NEVE PALPAVAM FRIO

ENCHENDO CADA CESTEIRA.

Utilizando escadas de mão, feitas em tosca madeira, os homens desciam ao fundo destes poços — que então tinham uma profundidade superior a uma dezena de metros — e, à medida que neles iam sendo despejadas as cestas com neve, iam calcando esta com pesados maços de madeira que empunhavam vigorosamente, à maneira dos calceteiros de hoje.

NOS VELHOS POÇOS NEVEIROS

COM MAÇOS — BEM VIGOROSOS

CALCAVAM OS CALCETEIROS

NEVE E GELO VALIOSOS.

Empedernida, isolada entre os paredões alisados pelo estuque, coberta depois com palha e fetos, a neve conservava-se, nesses amplos reservatórios, até ao Verão — sem que uma réstia de sol lhe pudesse chegar.

A jorna, eram contratadas mulheres e rapazio do Coentral e de outras aldeias vizinhas. É o caso dos Poborais, onde Julião Pereira de Castro, segundo ele próprio escreveu no Coentral, nomeou, em 1769, "Simão Duarte e José Duarte (...) para irem ajuntar neve à Real Fábrica que se acha no Cabeço do Perereiro, Serra da Lousã, e para esses avisarem os mais do lugar do Coentral para acudirem a ajuntá-la, por ficarem os ditos à vista da serra e verem quando cai a dita neve como também para irem ver a miúdo que não haja algum prejuízo na dita fábrica causado pelos pastores ou pessoas que passem, que não quebrem telhas dos telhados ou outro qualquer prejuízo para logo que suceda se prover de remédio e para o que lhe concedo todos os meus poderes que neste alvará que são concedidos para Sua Magestade, para que em meu nome possam requerer a todos os Ministros e Oficiais de Justiça e Guerra ou Fazenda, tudo o que preciso for para a boa conservação da neve da dita fábrica".

Embora de âmbito regional, este documento a que o Neveiro denominou de alvará bem reflecte os termos que, à escala nacional, eram usados nos alvarás régios da concessão de privilégios e protecções aos contratadores da neve.

Deles falaremos um pouco adiante.

Entretanto, para reforço da produção, as enxadas iam rasgando as ALAGOAS que eram, afinal, uns largos tabuleiros artificiais onde a água das chuvas ficava empoçada para depois vir a transformar-se em gelo.

Ainda hoje se podem localizar algumas dessas ALAGOAS por entre lousas quebradiças e urzes rasteiras. Mas a maior parte delas desapareceu quando, em 1971, foi ali construída para pista de aviões para se acudir aos incêndios da floresta.

NO CABEÇO DO PEREIRO

CAVAVAM AS ALAGOAS

PARA O FRIO... O MORANGUEIRO

PARA A FOME ALGUMAS BROAS

DA PRODUÇÃO AO ESCOAMENTO

Em traços muito gerais descrevemos a Produção da grande fábrica da neve do Cabeço do Pereiro.

Iremos agora dar uma breve descrição do escoamento e do consumo.

Quando chegava o tempo quente, a neve era cortada e seguia em grandes blocos, para Lisboa.

O transporte era feito, numa primeira etapa, em ronceiros carros de bois.

Apenas três ou quatro desses grandes blocos podiam ser carregados nessas robustas carroças e eram cuidadosamente envolvidos em palha, em fetos, mesmo em serapilheiras ou, ainda, metidos em caixotes.

Mas, mesmo assim, diz o testemunho oral que muita neve se perdia pelo caminho percorrido através dos tortuosos carreiros da serra, quase penosamente.

Em Miranda do Corvo fazia-se a primeira muda dos animais e depois os carros partiam para Constância onde, da via terrestre, se passava para a via fluvial.

Miranda do Corvo era marco!...

Depois, Constância, Barquinha

Aos bois, seguia-se o barco

Com o vento que convinha

Este transporte da neve era assistido por protecções legais, como as que obrigavam os povos dos múltiplos lugarejos encontrados pelo caminho a repararem ou substituírem, com rapidez, as carroças danificados. E, do mesmo modo, eram facilitadas as passagens da neve pelas portagens ao tempo existentes.

Para isso, atestam os documentos que el-Rei mandava "passar ordens a todas as autoridades civis e militares para facultarem ao arrematante, para a condução do gelo, carros, pessoal e barcos, bem como mantimentos, tudo pelos preços comuns ou correntes que fossem justos (...) e todos, nesse particular, deviam prestar coadjuvação ao arrematante; podendo qualquer oficial de Justiça ou autoridade militar, mesmo fora do distrito da sua jurisdição, embargar quaisquer transportes que se tornassem indispensáveis para a referida condução da neve".

Evocada na nossa época, a História dos NEVEIROS já passou ao Folclore nas quadras populares que temos vindo a escrever na esperança de não deixar esquecer esta história singular:

Do Inverno ao tempo quente

Pouco havia de interim

E servida a Régia Gente

Ia neve ao Botequim

 

Era no Terreiro do Paço

Que o Povo de Lisboa

Comprava sem embaraço

Do Coentral neve boa!

De facto, à volta de 1782, a neve era vendida, em Lisboa, no botequim onde hoje se situa o café "Martinho da Arcada".

Este foi sucessivamente conhecido por CASA DA NEVE, CASO DO DAFÉ ITALIANA, CAFÉ DO COMÉRCIO E CAFÉ MARTINHO, sendo esta última designação proveniente do facto de ter sido seu proprietário um tal MARTINHO RODRIGUES, que, em 1810, foi contratador da Neve do Coentral.

Esta casa tinha então um depósito de neve na Travessa da Parreirinha (próximo do Teatro de S. Carlos).

Aliás, há notícia da existência em Lisboa, de outros poços destinados a armazenar a neve. Houve poços no bairro da Graça e até a torre Norte do Castelo de S. Jorge, do lado da Calçada de Santo André, sofreu obras para ser transformada em depósito de neve.

Entretanto, segundo o jornal "A Gazeta de Lisboa" que se publicava no século XVIII, também se vendia neve, em 1792, no botequim da CASA DA OPERA da Rua dos Condes e, em 1793, na LOJA DE JOSÉ RODRIGUES FERREIRA, no Largo do Rato.

Já no século XIX, há várias alusões às lojas que vendiam neve, sorvetes e demais doces gelados... Em S. ROQUE, vendeu neve o BOTEQUIM DO TAVARES... NO ROSSIO, eram servidos gelados na loja de bebidas do MADRE DE DEUS... E outros cafés e botequins, como o MARRARA, o MINERVA DAS SETE PORTAS, o TOSCANO, o NICOLA e o GREGO venderam neve — uns desde o 1.º de Maio, outros desde o dia do Corpo de Deus, como se pode ver pelos anúncios que já publicavam na Imprensa.

Afinal, todo este consumo da neve desde o das ucharias reais até ao dos cafés e botequins de Lisboa ajudava ao sustento da pobre gente do Coentral que tal como acontecia com o neveiro Julião Pereira de Castro, se tornou devota de Santo António.

Rezava-se para que nevasse, pois a recolha da neve, no Cabeço do Pereiro, se tornara um complemento valioso do seu ganha-pão. Os pobres serranos do Coentral, além de pastores e de agricultores modestos eram também NEVEIROS.

Evocando esses tempos, canta-se, hoje, nas actuações do Folclore serrano:

Em jorna de fraca monta

Em labor lançado a esmo

Pouco mais daria a conta

Duma broa com torresmo.

 

Houve vezes p’ró NEVÃO

No alto da serrania

P’ra manter o ganha-pão

Promessas de romaria

 

Desse tempo nos ficou

Santo António na capela

Três poços — eis quanto restou

Desta história tão singela

 

A FECHAR...

Para finalizar esta evocação histórica, que procurei resumir tanto quanto me foi possível — faltou-me tempo para poder ser mais breve — resta-me aludir ao facto de terem sido naturais do Coentral os últimos contratadores da neve.

Julião Pereira de Castro jamais conseguiu ser eleito para Juiz da Igreja do Coentral, como tanto mostrara desejar. É certo que a sua devoção o levou a mandar construir, na igreja paroquial do Coentral, o belo altar de Nossa Senhora das Dores. É conhecido o facto de ter feito oferta à mesma igreja de um lindo lustre (que acabaria por vir a ser roubado pelos franceses) e de também ter oferecido para o culto ricos paramentos, um pálio e uma Cruz de Prata.

Pelos vistos, nada disso lhe chegou para que os coentralenses — à boa maneira da região — não o quisessem para Juiz da Igreja, por ele ser, a seus olhos, um achadiço!...

Em 1810, como já vimos, foi contratador da neve o dono do botequim do Terreiro do Paço cujo nome era Martinho Rodrigues.

Depois deste, só temos notícias, pelo testemunho oral, de contratadores da neve oriundos do Coentral.

Em 1955, ainda pude falar com três octogenários que então eram os únicos sobreviventes de quantos se dedicaram no Coentral à faina dos neveiros.

Eram eles:

Maria Lopes Miranda — com 88 anos

José Lopes Agostinho — com 82 anos

e Manuel Barata — com 84 anos

Em inesquecíveis conversas com eles e com outros velhos coentralenses entre os quais saliento o saudoso Joaquim Lopes de Carvalho (Joaquim Lopes de Carvalho faleceu, com 99 anos, em Abril de 1984. Ele e também sua sobrinha Nazaré da Conceição Barata — falecida, com 84 anos, em Fevereiro de 1986 — eram a memória viva da história do Coentral), que me transmitiram com segurança o que viram e o que puderam ouvir, na sua juventude, aos mais idosos, pude recolher preciosas informações que depois pude conjugar com o que encontrei nos livros e documentos.

Disseram-me que os contratadores da neve tinham fama de muito ricos e que faziam muito bem aos pobres.

Segundo me contaram, bem conheceram os últimos neveiros e referiram-me que um deles fora José Agostinho Barreto e que, em meados do século XIX, ele ia a Lisboa, todos os meses, para receber, no botequim do Terreiro do Paço, o dinheiro da neve que para lá vendera. E porque as quantias recebidas eram muito elevadas, contava-se no Coentral que o dono do botequim de Lisboa lhe dissera um dia:

— Com tanto dinheiro que aqui recebe, Sr. José Barreto, certamente vossemecê já mandou cobrir de prata as ruas da sua terra...

E ficou também na tradição oral que, quando este José Agostinho Barreto morreu, os seus herdeiros encontraram uma arca cheia de moedas de prata e que, para não perderem muito tempo com a contagem de tal fortuna, a repartiram entre si fazendo os respectivos quinhões com o enchimento de medidas de alqueire.

Ainda hoje os mais velhos falam nesses alqueires de prata.

Tornou-se famoso um destes herdeiros. Foi grande figura da Igreja. Foi Dom Manuel Agostinho Barreto, nascido em 1835 e que viria a ser, desde 1877, Bispo do Funchal, ali se mantendo nessas altas funções eclesiásticas até à data da sua morte, ocorrida em 1911.

Outros dos três filhos de José Agostinho Barreto veio a ser, durante alguns anos, o sucessor do pai, como contratador da neve, mas veio a morrer muito novo, deixando o seu privilégio de Neveiro à viúva, a qual ficou respeitosamente conhecida no meio por "SENHORA MARIA", quando as demais mulheres da aldeia eram tratadas por ti Maria, ti Marcolina, etc.. Morreu esta senhora em 1912, tendo sido a última neveira que existiu em Portugal.

Ela foi tia de um grande vulto da Medicina Portuguesa de quem todos nós estamos bem lembrados: — Era o Professor Fernando Bissaia Barreto.

E, minhas Senhoras e meus Senhores, assim termino esta evocação histórica ficando muito penhorado pela atenção que tiveram a bondade de me conceder.[Coentral e Santo António da Neve, 13 de Junho de 1986]

 

DOCUMENTOS

Para a história dos "Neveiros Reais" e dos poços da neve do planalto de "Santo António da Neve" (também designado por "Cabeço do Pereiro"), da Serra da Lousã — Coentral, têm inegável interesse dois documentos divulgados, em 1936, pelo professor Virgílio Correia, da Faculdade de Letras de Coimbra.

Datado de 1759 o mais antigo desses documentos dispõe o seguinte:

"Eu el-rei faço saber a vós, Sebastião José de Carvalho e. Melo, conde de Oeiras, do meu conselho, secretário do estado dos Negócios do Reino e que servis de meu mordomo-mor, que Julião Pereira, neveiro da minha casa me representou que eu lhe fizera mercê do dito ofício por alvará de 23 de Junho de 1757, sem moradia nem ordenado, obrigação de dar a neve que fosse necessária todo o ano para a minha casa o preço de 40 reis o arrátel, em qualquer parte onde ele estivesse, como também à mais família dela pelo mesmo preço para o que poderia tomar as carruagens bestas e barcos, e tudo o mais que lhe fosse necessário para a condução da dita neve, a que não se lhe poria dúvida nem embargo algum, antes lhe teria dado todo o favor e ajuda que ele pedisse. E porquanto as justiças lhe duvidavam estes privilégios ao dito ofício concedidos, sem os quais não poderia, na forma das suas obrigações prontamente exercitar, me pediu lhes reformasse, ao que entendendo: hei por bem e mando a todos os oficiais de Justiça, Guerra ou Fazenda guardem e façam guardar ao dito Julião Pereira, neveiro da minha casa todas as regalias, privilégios e isenções que concedi ao dito ofício, dando-lhe todo o favor e ajuda que ele pedir para o transporte da neve; e que com as pessoas que trouxer na sua condução não atendam, constando porém quais são, por certidão do seu mordomo-mor...

Lisboa, 3 de Novembro de 1759!

Rei: Conde de Oeiras. Alvará. de reformação de privilégios que V. Majestade manda se guardem a Julião Pereira, neveiro de Sua Real Casa, na forma que acima se contém e foi servido conceder-lhes com o dito ofício".

Dez anos depois, ainda era "neveiro real" Juilão Pereira de Castro, residente no Coentral Grande onde ainda se conserva a sua casa — outrora a mais solarenga desta aldeia — apesar de muito adulterada na sua traça, por marcas do tempo e da incúria e também pelo mau gosto dos sucessivos proprietários.

O segundo documento é de 1769. Embora de âmbito regional, limitado à zona serrana onde se situava a "real fábrica da neve", é uma peça histórica digna de transcrição. Por isso a reproduzimos aqui:

"Nomeio a Simão Duarte e José Duarte, do lugar dos Poboares, termo de Góis, para irem ajuntar à Real Fábrica que se acha no Cabeço do Pereiro, serra da Lousã, e para esses avisarem os mais do lugar do Coentral para acudirem a ajuntá-la, por ficarem os ditos à vista da serra e verem quando cai a dita neve como também para irem ver a miúdo que não haja algum prejuízo na dita fábrica causado pelos pastores ou pessoas que passem, que não quebrem telhas dos telhados ou outro qualquer prejuízo para logo que suceda se prover de remédio e para o que lhe concedo todos os meus poderes que neste alvará que são concedidos para Sua Majestade, para que em meu nome possam requerer a todos os Ministros e Oficiais de Justiça e Guerra ou Fazenda, tudo o que preciso for para a boa conservação da neve da dita fábrica.

Coentral, 29 de Janeiro de 1769. Julião Pereira".

No dizer do Prof. Virgílio Correia os "Poços da Neve" merecem pela sua construção e raridade ser considerados edifícios de interesse público ou, aproveitando a designação proposta por João José Paulo Pereira, no VI Congresso Beirão (1936), Incluídos no património comum.

O Decreto do Governo n.º 1/86 de 3 de Janeiro classificou como "IMÓVEIS DE INTERESSE PÚBLICO" os Poços da Neve e a Capela de Santo António da Neve, da serra da Lousã — da freguesia do Coentral, do concelho de Castanheira de Pêra.

A Capela de Santo António da Neve foi mandada construir, em 1786, pelo Neveiro da Casa Real Julião Pereira de Castro.

Tendo em consideração o diploma legal acima referido e a passagem do duplo centenário da construção da capela, a Junta de Freguesia do Coentral, em colaboração com a Câmara Municipal de Castanheira de Pêra, levou a efeito uma significativa cerimónia comemorativa, tendo sido inaugurado pelo Sr. Joaquim Alves Barata, Presidente da Junta de Freguesia do Coentral, uma lápide com os seguintes dizeres:

EM 13 JUNHO 1986

O POVO DO COENTRAL

EVOCOU OS ANTIGOS NEVEIROS

E

COMEMOROU OS DUZENTOS ANOS DA CAPELA DE SANTO ANTONIO DA NEVE NA SERRA DO COENTRAL — LOUSÃ

CONCELHO DE

CASTANHEIRA DE PÈRA

Houve romagem ao planalto de Santo António, tendo o reverendo Padre Daniel Antunes celebrado missa na secular capela.

Uma palestra sobre o tema "OS NEVEIROS DE SUA MAJESTADE" foi proferida, na mesma capela, pelo Sr. Dr. Herlânder Machado que à história da actividade dos neveiros, do transporte da neve e do seu consumo em Lisboa, tem dedicado, desde há largos anos, a sua especial atenção quer pela consulta de documentos quer pela oportuna recolha dos testemunhos orais....

 

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