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Lousã, coração de Portugal

Todos os lousanenses falam da sua terra com uma espécie de ternura devota, de paixão religiosa — e têm razão para isso. É uma terra singularmente formosa e amorável. Quando a gente lá chega, sente-se rodeada de beleza e de doçura. Naquele panorama graciosíssimo, a atmosfera é abençoada.

A Lousã tem crescido sempre e correspondentemente enriquecido, não só porque os seus naturais cumprem de todo o coração a lei de Deus, mas também porque muitos homens, doutras vilas e das cidades ali vão ter e logo passam a gozar mais satisfeitamente a vida. Do consórcio da sua paisagem e do seu ambiente, resulta uma força suavíssima e irresistível, que chama, enamora e prende. Famílias abastadas para ali têm transferido os seus haveres e os seus cuidados, por verificar como o torrão excepcionalmente mimoso e o céu que o abençoa merecem o trabalho e a contemplação. E um exemplo entre todos eloquentes: o grande pintor Carlos Reis que, como bem poucos hoje, no mundo, ama a Natureza e a sabe interpretar, planeou, numas férias da sua Escola e do seu atelier de Lisboa, uma excursão de visita à província; para a Lousã, marcou dois dias; e lá ficou, para sempre.

A Lousã é oficialmente uma vila, se me não engano, de segunda classe. Dalgum modo constitui hoje um subúrbio de Coimbra, porque pela estrada de ferro se faz o trajecto em cinquenta minutos e de automóvel, pelos vales sucessivos e enlevadores do Mondego, do Ceira e do Arouce, em pouco mais dum quarto de hora. Tem escola primária e secundária, tem o seu hospital e o seu teatro, dois clubes, duas filarmónicas, grande fábrica de papel, estradas modelares, por onde, em todas as direcções, a servem os vastos omnibus em Portugal denominados, à francesa, camionetes... Acima, porém, de todas as aplicações da luz eléctrica e de todas as facilidades do telefone pelo qual se pode falar para o mundo inteiro, se avantaja ali a condição do bem-estar geral, duma vida colectiva isenta de lutas e de misérias.

Pelo aspecto, em conjunto, da localidade, se diria que toda a gente vive "sem vergonha do mundo" e dentro da graça de Deus. As linhas vivas do cenário mostram o chão dividido, retalhado harmoniosamente, como que para a cada moradia caber o seu pedaço de terra criadora. Não quer isto dizer que, na realidade, não exista gente opulenta e gente pobrezinha. Mas a partilha, como de certo em poucos lugares, ali se aproxima da perfeição. E, como o solo peregrino tudo dá facilmente e da melhor qualidade, as famílias mais modestas possuem a sua leira de semeadura, a sua latada de vinha, duas ou três oliveiras, um castanheiro, e ainda, bem de raiz tão indispensável como os outros, um canteiro de flores ou, quando menos, no rebordo das janelas, alguns vasos de malva ou de manjericão. Talvez a Lousã não exporte cereais nem frutas nem vinho e até nem a madeira dos pinheirais das suas montanhas; mas de certo nenhuma dessas coisas manda vir de fora. O que tem lhe basta. É um paraíso.

É um paraíso situado no sopé da serra altíssima que, no verão, não deixa o sol castigá-la em demasia e no inverno tanto quanto possível a abriga da nortada regeladora. A espinha da cordilheira fica branca, branca de neve, mas cá em baixo dalgum modo as criaturas se sentem agasalhadas. E, assim que principia a primavera, os próprios montes se revestem de benignidade e seducção. Os pinheiros nos tonificam os pulmões e a alma; eucaliptos e carvalhos nos transmitem aos musculos e ao sentimento a essencia daquela saúde secular... A serra tem sempre a grandiosidade dentro da qual nos achamos, a nós proprios, pequenos; mas essa humilhação ao mesmo tempo nos acolhe, nos acarinha, e invariavelmente nos faz bem. E na serra da Lousã há o Castelo dos Mouros e há a Senhora da Piedade.

Tão linda é a Ermida e tão poética na rudeza augusta da sua moldura de fragas e penedias que não podia deixar de ter uma lenda. O castelo tem outra. Ambas contei noutro lugar, mas terei que as repetir agora, já porque o sentimento assim mo impõe, já porque, sem elas, não ficaria completa a descrição da Lousã — da Lousã que, quase ao meio e um pouco à esquerda do mapa, é como que o coração de Portugal.

Foi uma menina, com figura e alma de santa, que por suas mãos edificou o primeiro, o mais alto daqueles pequeninos templos, realizando sozinha um prodígio para o qual não bastariam cem pedreiros e moços de serventia. É que o Demónio resolvera não deixar levar a cabo a obra maravilhosa. Quando a moça chegava a sobrepor algumas pedras e ia abaixo à ribeira, buscar água para amassar barro e ajustar outras tantas, vinha o inimigo, desmanchava, espalhava tudo; e se a criaturinha abandonava um momento a cântara, logo ele lha precipitava pelos rochedos. Mas a cântara, que era de barro comum, ficava intacta, e a obreira inspirada não perdia a paciência: continuava na 1ida noite e dia. Até que Nosso Senhor mandou um Anjo para afugentar de vez o Mafarrico.

Em menos de três dias estava a capelinha concluída e caiada. E a donzela, mortal na mesma hora, subiu ao céu, nos braços do Anjo Protector.

A lenda do castelo não o edificou; mas tem-no conservado, através das gerações e dos séculos. Quando os mouros se viram obrigados a fugir dos cristãos e como não pudessem levar riquezas que possuíam, decidiram enterrá-las, num grande pote de ouro, no subterrâneo da fortaleza. Mas, pensaram eles, os cristãos haviam de ter notícia daquela fortuna escondida, haviam de querer apossar-se dela. Que fizeram então os mouros? Enterraram, ao lado do primeiro pote, um outro, de peçonha. E assim, ninguém jamais se atreveu a cavar aquela terra, atentando contra a segurança daqueles alicerces, porque, se o pote de ouro cerrava a maior riqueza do mundo, o de peçonha, apenas destapada ,mataria quanta gente estivesse mil léguas ao redor.

Assim os dois monumentos, os dois símbolos se enfrentam: o castelo negro como um vestígio do poder antigo da Conquista ; a ermida força sempre renovada da Fé![Lousã, coração de Portugal/João Luso; fotog. F. Ferreira]