free web hosting | website hosting | Business Hosting Services | Free Website Submission | shopping cart | php hosting

Iluminação eléctrica

 

Foi inaugurada no Domingo a Iluminação Eléctrica Realiza-se finalmente uma antiga aspiração desta linda vila

  No domingo passado foi dia de festa na Lousã. O tempo teimosamente chuvoso, não permitiu que as manifestações populares revestissem por essas ruas o entusiasmo que era de esperar, se tivermos em conta a importância que representa para todos este melhoramento da iluminação eléctrica da vila.

Foi pena, por que gostaríamos de ver, naquele dia de contentamento geral, toda a linda vila da Lousã, garrida nos seus fatos domingueiros, rindo e folgando por essas ruas e praças.

Não o quis assim o tempo, se é que para isso não contribuiu um pouco também a indiferença da população, já fatigada por este requentado chá da luz eléctrica, descrente por nele tanto terem ouvido falar e por que, finalmente, a descrença é, como a pneumónica, uma doença — a doença da moda... — amarfanhando aqueles que ataca e deprimindo os restantes,

Não o quis assim o tempo, mas nem por isso a Lousã deixou de, na noite de Domingo, gozar uma comodidade mais, juntando às suas belezas, aos seus atractivos, aos seus encantos, um progressivo melhoramento, que vem substituir a vida nocturna da vila, sorumbática e conventual, por uma vida nova, alegre e risonha.

Terminou, finalmente, esta vergonha para todos nós, de para aí vivermos mergulhados em densas trevas, dando aos que nos visitavam e aos que na estação desta vila vinham embarcar ou desembarcar uma triste impressão de atraso e caturrice pessoal.

Este é que é o grande facto, esta é que é a realidade: — Terminou finalmente essa vergonha. Temos a Lousã iluminada.

Nos Paços do Concelho

Às 17 horas, como fora fixado nos programas, na as dos Paços Municipais, perante mais de 200 pessoas. Foi lido o auto de entrega da rede de distribuição, feita pela Câmara à firma Padilha, Rebelo & C.ª.

O sr. dr. João Santos, presidente da Câmara, disse apenas que era aquele um dos momentos de maior satisfação da sua vida e que ia assinar aquele auto convencido que praticava o acto mais solene de toda a sua vida pública. E assinou, assinando seguidamente o nosso amigo José Augusto Rebelo, como representante da Empresa.

A voz metálica do sr. Secretário chamou a seguir, para assinatura do auto:

— “Os senhores vereadores. Os senhores engenheiros. A comissão encarregada pela Câmara de estudar o contrato”.

Por fim, mais cantante ainda:

— Todos os senhores que desejarem assinar”.

No protocolo do sr. Secretário não há lugar especial para o Delegado do Governo neste concelho.

Regista-se.

Esta e outras descortesias, que só àquele funcionário podem ser atribuídas, por que é público que ele põe e dispõe nestas coisas, como se a Câmara fosse a sua casa de moradia, teriam dado lugar a um bem justificado protesto da parte do sr. Administrador do Concelho e de todos os republicanos presentes, se entre eles se não houvesse previamente estabelecido a necessidade de tolerar estas ou outras impertinências, para se não prejudicar o contentamento e satisfação de todos naquele dia, evitando ao mesmo tempo uma sensaboria, aos hospedes que honravam a nossa terra, tomando parte no nosso regozijo.

Fique isto bem assente.

E mais nada, nos Paços do Concelho. O acto decorreu com toda a frieza que acima fica traduzida. Francamente o lamentamos.

Na Central Eléctrica

Seguidamente uma grande parte das pessoas presentes dirigiu-se para a Cabina de Transformação, que visitou, e dali para a Central, no edifício fabril da Empresa Padilha,. Rebelo & C.ª, um pouco abaixo da Estação do Caminho de Ferro. Para ali se dirigiram também muitas outras pessoas, especialmente industriais e comerciantes, que aquela firma havia especialmente convidado, percorrendo as várias de pendências daquele importante estabelecimento.

Numa dessas dependências está instalada a Central Eléctrica, que foi demoradamente visitada, dando os engenheiros presentes detalhadas informações sobre a instalação, que impressiona bem até os próprios leigos como nós.

Toda a Fábrica estava vistosamente engalanada, vendo-se a todo o comprimento, na parte destinada à serração, uma enorme mesa, onde foi servido jantar a todo o pessoal fabril.

No armazém é que fora instalada a mesa em que foi servido o copo de água, gentilmente oferecido pelos srs. Padilha, Rebelo & C.ª aos seus numerosos amigos. A todo o comprimento uma longa mesa, de cerca de 30 metros, sobre a qual se viam verdadeiras pilhas de doces, etc. Em volta, uma vistosa ornamentação de festões, palmas, bandeiras e flores.

Ao champanhe, falou em primeiro lugar o sr. José Augusto Rebelo, gerente da firma, saudando em nome dela a Câmara e os convidados. Referiu-se às dificuldades da instalação e à sua carestia, mostrando que só um grande desejo de ver na Lousã este melhoramento levou a sociedade, de que é gerente ao esforço necessário para vencer essas dificuldades.

O sr. dr. João Santos, presidente da Câmara, agradeceu os cumprimentos da Empresa, louva o seu grande esforço e saúda a Lousã pelo grande melhoramento com que conta a partir de hoje.

Em seguida falou o sr. dr. Carlos Sacadura, conservador da comarca, que fez saudações a várias pessoas, alongando-se em considerações, sobre as vantagens que a iluminação eléctrica vinha trazer à Lousã.

Seguiu-se-lhe o sr. José Dias Anastácio, que agradeceu os cumprimentos que lhe haviam sido feitos, falando logo em seguida o sr. P.e Lopes Fernandes que enaltecendo as belezas  da Lousã, cumprimentou a Câmara e a Empresa pelo grande serviço prestado à vila. Referiu-se ainda aos serviços prestados por outras pessoas entre elas o sr. dr. José Mascarenhas, que se encontrava presente, já bastante restabelecido da sua longa doença, e que todos saúdam com a simpatia que a todos merece.

Segue-se o sr. dr. José Cardoso, que fala das belezas da Lousã e dos atractivos com que prende os que um dia a visitam, de tal maneira que entre os homens de acção desta vila se encontram muitosque de fora vieram, de fora tendo vindo também muitos dos próximos ascendentes de tantos lousanenses ilustres. Os srs. Padilha e Rebelo de fora para aqui vieram também, e toda a gente lhes faz a justiça de os considerar lousanenses dos mais empreendedores.

Saudando a Empresa diz que o faz tanto mais sinceramente quanto é certo que conta nos seus gerentes três amigos de longa data, que sempre muito sinceramente estimou.

Recorda a amizade com Bernardino Padilha, desde 1909, os seus tempos de condiscípulo de José A. Rebelo há mais de 20 ou 23 anos, e quando sempre considerou Luís Correia, a quem um dia confiou uma missão delicada, das que só a amigos se confiam.

A satisfação com que a todos saúda é ainda muito aumentada com o facto de ser a electricidade fornecida daquela mesma fábrica, construída por pessoas de sua família, a sr.ª D. Albertina Dias, o sr. Pedro Dias, o falecido sr. Manuel Dias e o sr. Luís Pinto Santiago, que um dia tiveram a enternecedora lembrança de iluminar a electricidade a terra em que nasceram e da qual tantos anos viveram afastados. Refere largamente o que a tal respeito se passou em 1916 quando, como advogado daqueles seus parentes, apresentou na Câmara a proposta para a iluminação, falando a seguir dos motivos que fizeram fracassar esta tentativa e aproveitando a oportunidade para afirmar que aqueles senhores nunca pensaram em fazer um negócio, pois tinham a certeza, que os engenheiros lhes davam, de que iriam perder dezenas de contos. A sua intenção era apenas dotar a sua terra com um melhoramento, pagando-o em parte do seu bolso. Deve-se-lhes essa justiça, e pena foi que o seu bom desejo não tivesse podido transformar-se numa realidade.

Por tudo isso, tem uma grande satisfação em saudar a Empresa e a Câmara, por terem enfim conseguido este melhoramento para a Lousã, pois era uma vergonha para todos nós a indiferença que a um tal assunto havia sido votada, quando é certo que em três concelhos limítrofes já este melhoramento fora levado a efeito. Faz estas saudações em seu nome pessoal e em nome do Centro Republicano que ali representa, pois não tem aquela colectividade qualquer espécie de despeito por ser uma Câmara que não é da sua feição política quem deu realidade a esta velha aspiração da Lousã. O Centro interessa-se por tudo o que respeita ao progresso e melhoramento do concelho, como é do artigo primeiro dos seus estatutos, e por isso louva os que no mesmo sentido trabalham. Assim, as suas saudações são francas e sinceras.

E, terminando por salientar a necessidade que todos temos de reagir contra a indiferença e o negativismo, que prejudicam todos os sãos esforços, confiando nas intenções alheias e não malsinando todos os propósitos que não sejam os nossos, pois há sempre e em tudo uma obra que é de todos e na qual todos cabemos a trabalhar, desde que haja boa fé e lealdade, saudou várias das pessoas que a este melhoramento deram o seu esforço dedicado e bebeu pelas prosperidades da Empresa e dos seus sócios gerentes.

Falou por último, o sr. dr Ulisses Cortês que começou por agradecer a gentileza do convite que lhe fora dirigido para assistir àquela festa. Declarou em seguida que, como lousanense e como fundador e redactor da “Alma Nova”, jornal a quem o engrandecimento da Lousã tem merecido um tão carinhoso interesse, não podia deixar de se congratular com a realização do importante melhoramento da iluminação eléctrica desta vila.

E depois de afirmar, em palavras vibrantes, o seu amor à Lousã, saudou a Câmara Municipal e todas as outras entidades que com o seu esforço tinham contribuído para a efectivação daquele melhoramento, destacando de entre elas o engenheiro sr. José de Mascarenhas seu companheiro de infância, de quem traçou um caloroso elogio

Terminou por brindar pelo progresso da Lousã e pelas prosperidades da empresa concessionária.

Terminou assim o abundante copo de água durante o qual foram muito abraçados os sócios da Empresa, que a todos os convidados receberam com o mais franco acolhimento.

Pela nossa parte agradecemos o convite com que este jornal foi honrado pela firma Padilha, Rebelo & C.ª, e igual agradecimento fazemos em nome da Direcção do Centro Republicano, pelo convite que pelos mesmos srs. Lhe foi enviado.

Todas estas festas foram abrilhantadas pela Filarmónica Lousanense, que percorreu as ruas da vila executando interessantes passos dobrados.

O Centro Republicano da Lousã manteve durante a tarde hasteada a bandeira nacional e iluminou à noite a sua fachada, associando-se assim ao regozijo de toda a população da vila.

Como referimos noutro lugar realizou-se 2.ª feira passada, no Grémio Recreativo um baile com que a direcção desta colectividade e um grupo de sócios quiseram festejar a inauguração da luz eléctrica nesta vila.

A ampla sala do Clube estava esplendidamente iluminada e oferecia um aspecto magnífico.

O baile começou cerca das 23 horas tendo assistido a ele as famílias de quase todos os sócios e inúmeras pessoas de fora, entre as quais nos recordamos de ver os srs. Dr. Carlos Moreira, professor da Universidade de Coimbra, drs. Saavedra e Esparteiro, assistentes da mesma, dr. Agostinho Tinoco, Benjamim Silva, dr. Fausto Lobo, Castanheira Lobo, Francisco Feio, etc.

O baile decorreu no meio da maior animação e entusiasmo, tendo terminado cerca das 6 horas.

Na 3.ª feira houve também reunião, tendo-se dançado até às 2 horas da manhã.

Na 2.ª feira última a Filarmónica Lousanense percorreu as ruas desta vila, manifestando assim o seu regozijo pela inauguração da luz eléctrica. [“Alma Nova”, 13 Fev. 1924]