free web hosting | website hosting | Business Hosting | Free Website Submission | shopping cart | php hosting

O ERMITÃO DO CANDAL

(LENDA DA LOUSÃ)

Em direcção à Serra

O automóvel corria ligeiro, enquanto a conversa se animava em calorosa discussão:

— Nossa Senhora da Piedade recolhia à sua capelinha gentil, que se avistava no fundo do vale, entre maciços de verdura e todos procuravam o melhor sítio para ver o cortejo.

Instalados enfim, enquanto esperávamos, um dos nossos companheiros de passeio, contou em singelas palavras a seguinte lenda, conhecida ainda entre esse povo.

D. João de Cáceres, passou a primeira infância no seu rico solar da Lousã. Tinha duas irmãs mais velhas e os pais — como ele era o único rapaz — rodeavam-no de cuidados e mimos, adivinhando-lhe os caprichos. Mas a sua educação foi verdadeiramente requintada, nada faltando para o tornar notável.

Cedo perdeu os pais, sendo logo atraído pela corte onde se exercitou no jogo das armas, entrando em liças e torneios, com denodada valentia.

As histórias românticas de cavaleiros andantes, eram a sua leitura predilecta e Amadis de Gaula o seu herói favorito.

Nos sumptuosos banquetes — onde o vinho de Chipre e do Reno corria em abundância — os brindes e canções de trovadores, enchiam de ruidosa alegria os ecos dos velhos palácios e a claridade dos tocheiros fazia brilhar as cores vivas das roupagens e os gumes das espadas, que por vezes se chocavam nesse ambiente perfumado.

Saboreando delicados manjares, as gargalhadas retiniam, correndo de boca em boca picantes e espirituosas anedotas. Mas as façanhas heróicas despertavam sempre entusiasmo, nas almas aventurosas da mocidade dourada..

Fidalgo e cavaleiro, servido por pagens e escudeiros, novo, altivo, belo como Apolo, D. João sonhava ternos idílios e conquistas fabulosas, no meio dessa vida de esplendor: Um dia — quando menos se podia esperar — partiu no seu ágil corcel, ricamente ajaezado, em direcção da Terra Santa.

....no àgil corcel

Armados até aos dentes, os companheiros fiéis, que o reconheciam como chefe, seguiram na sua escolta, deixando flutuar vistosas faixas com as cores das suas damas, resolvidos a vencer ou a morrer pelo ideal sonhado: E na encarniçada luta, bradando cada um pelo nome da sua amada, foram tais os prodígios de valor, que puseram em fuga os serracenos, mais numerosos e aguerridos.

Como bravos voltaram à Pátria, para receber merecido prémio.

..........................................................................................................................

...fidalga portuguesa

Na corte correu a falsa notícia da morte de D. João.

Ouvindo o toque de clarins do exército vencedor, D. Briolanja — a mais bela flor da fidalguia portuguesa — caiu fulminada ao lajedo, apertando contra o coração o lenço perfumado, com as cores do seu herói.

Coberto de crepes, D. João seguiu o fúnebre cortejo, enchendo de flores a campa da sua noiva: depois partiu em desenfreado galope e excitando o fogoso corcel, que o levou ao seu belo palácio, junto à Serra da Lousã, onde tinha ainda duas irmãs.

Ali viveu algum tempo, sempre acompanhado por um preto, escravo fiel e dedicado.

Quando morreram as irmãs, reuniu criados e mordomos: a todos gratificou e despediu, entregando ao mais velho a administração dos seus haveres, ordenando que distribuíssem todo o milho, aos pobres que batessem à sua porta. Assim se fez. Um dia,, foi dizer-lhe o feitor que já não havia que dar: todo o milho das colheitas fora distribuído e o peditório não cessava.

Vestido de burel e com bordão de peregrino, D. João subiu lentamente a Serra, até perto do Candal, acompanhado pelo escravo, que parecia adorá-lo. Ali — juntando pedras e ramos de arvore — construíram tosca guarita onde ambos se acoitaram, fazendo severa penitência durante três dias: findos estes ordenou D. João que abrissem celeiros e arcazes, e o espanto foi geral, encontrando-os repletos de milho, que nunca mais conseguiram esgotar. Ermitão coberto de crepes

..........................................................................................................................

Interrompeu-se a narrativa. O alegre bando espalhou-se pela estrada, anunciando que a procissão ia passar. Realmente por entre a ramaria, assomou o primeiro pendão, seguindo-se outros mais e as cruzes de prata reluziam ao sol com todo o brilho.

O andor — branco e dourado — escondia em montões de rosas, a pequena imagem venerada.

Dos lados da estreita vereda, opas vistosas — alinhadas em simetria — desenrolavam-se pelos ziguezagues do caminho, como fita de cor apagada, com orlas ponteadas a retrós vermelho. Depois, opas azuis e brancas de outras irmandades e o povo em massa compacta, fechando o religioso préstito.

Na Serra — semeada de povoações pequeninas — verdes variados punham nota alegre no fundo escuro das oliveiras, que ali se ostentam em milagre de equilíbrio, vestindo píncaros agudos e escarpados declives. O vento sacudindo os ramos em ritmo cadenciado, juncava o chão com a flor branca e miudinha desprendida em avalancha, para libertar o bago da azeitona, imperceptível ainda entre a folhagem.

.......................................................................................................................................

Fomos caminhando lentamente, para melhor admirar a estupenda paisagem que nos deslumbrava.

Apontando um rochedo negro—perto de Cata-Redol — dizia ainda o nosso companheiro de passeio:

— «Foi ali que D. João de Cáceres se retirou, quando — tocado pela graça Divina —deixou as galas do Mundo pela solidão do ermo.

— Um dia foi encontrado morto junto ao regato que atravessa a Serra, tendo a seu lado o pobre escravo, que do mesmo mal fora atacado.

Ambos vestiam de burel, parecendo sorrir com beatitude: e os pássaros cantavam inspirados gorjeios».

Diz o povo, que os Anjos levaram essa noite para a igreja da Lousã o corpo de D. João e do seu preto fiel.

Ermitão encontrado morto

Ninguém sabe onde repousam.

Na Serra, ficou o negro rochedo, como memória da sua passagem pelo mundo. E, nas humildes casas da. aldeia, as velhas avós, contam à lareira esta singela lenda. E rezam em coro pelo eterno descanso do Ermitão do Candal, implorando a sua alma pura, para que proteja sempre os habitantes da Lousã, onde — a par da civilização mais requintada — se goza ainda a vida patriarcal e tranquila dos tempos idos.

.......................................................................................................................................

A figura ideal do Ermitão merecia ser trasladada — por mãos de artista — para grandiosa tela, ficando memorável e como simbólico emblema dessa linda terra.[O Ermitão do Candal: Lenda da Lousã. in: Quem quer linhas, agulhas e alfinetes/Condessa de Proença-a-Velha, Lisboa, 1933, p. 51-58]